27/09/2010

amor?

 Minha ferramenta de convívio social via internet é o twitter e ali acredito uma vitrine interessante para poder-se verificar as dúvidas e preconceitos de cada um. Claro, não sou filósofo, psicólogo nem faço parte de qualquer ramo das Humanas, mas como escritor é sempre bom ter-se à mão uma janela para se espiar, voyeuristicamente, o cotidiano das pessoas.

Hoje, domingão sem sol e sem nada a fazer comecei assim ali, no site do passarinho:

"A confusão sentimental primordial: amor / paixão / tesão / posse"

Alguém duvida que relacionamentos sempre envolvem ao menos três dos quatro sentimentos que foram ali citados? Percebem como se mesclam uns aos outros para criar a estabilidade ou a ruína de um relacionamento qualquer? 


A frase ali acima destacada rendeu comentários interessantes, por isso continuei na mesma balada:

"Amor: Comodismo. É estar com quem se quer, sem o compromisso de olhar p/ os lados. É falho, posto que morno."
"Paixão: O grau elevado do amor, entremeado pelo tesão, controlada a posse. Paixão é sorver, degustar, querer. "
"Tesão: a animalidade do relacionamento. A burrice do desejo sem comprometimento afetivo. tempera, mas não é prato principal. "
"Posse: Não ama, tem. Não se apaixona, consome. Não acarinha, fode. A posse é o vício, o passional sem peito ou cabeça. Burrice pura."

Tirando a limitação de caracteres comum à ferramenta, acredito que é bem claro o que penso sobre o tão manjado "amar", banalizado. Anos atrás escrevi um poema sobre:

Paixão

O amor? Sentimento falso e mesquinho
Mescla de falsidade e comodismo!
Sou muito mais é pela paixão;
me perder em delírios puros,
sentir-me em sua presença a cada instante
mas ao mesmo tempo sentir ainda a alma pesada de saudade
Amor é algo comercial:
Bodas disso, bodas daquilo, presentes.
Um lixo!
Mas é a pobre da paixão, menosprezada,
catalogada como sentimento juvenil, passageiro,
que me arrebata, me tira os pés do chão,
me sacode, me leva por ventos que,
mesmo sendo tão conhecidos de paixões outras,
tem sempre o doce e o amargo de novas descobertas.
Bah! para você amor, seu caduco com sua indecente,
chata e incoerente frase-chavão: "Eu te amo..."
Mentiras. Não ama, suporta. Aprendeu a convivência.
Mas e a pobre paixão?
Essa que te ergue ao topo, te faz fiel porque,
Quando apaixonado está, nada mais agrada
Que aquele olhar tão quente...aquele pequeno instante...
Um toque!
Aí está a comprovação!
Um toque de seu ou sua apaixonante meta lhe traz fogo às entranhas
Ferve, quase evapora todo o sangue de seu corpo.
Olha no espelho e vê se não fica roxo!
Teu amor? Pode te esmurrar, violar, invadir...pois..simplesmente,
está ali.
Que se danem enamorados e que salvem-se, espelhem-se,
sintam-se, APAIXONADOS.
Sintam-se vivos como se o mundo acabasse naquele instante e você,
pelo canto dos olhos, desejasse que tudo fosse para o inferno,
pois ali, em seus braços, está a paixão momentânea de uma vida toda.

Continuo fiel ao acima escrito.

Amor, como se tem usado, é uma infâmia. Um ataque contra a(o) parceira(o). O cidadão Fulano de Tal sai de casa, trabalha, passa no bar, enche a cara, come a secretária. Chegando em casa, estapeia a mulher que o questiona, chuta o cachorro, assusta as crianças. Mas está ali, para felicidade de todos, pois são uma "família que se ama". Esse é o exemplo mais claro de amor: o comodismo forçado, o sexo em meses alternados, o prato de comida fria servido sem os arranjos combinando a salada com a carne. Não há alegria e sim a tensão do porvir, que todos sabem jamais virá. Em nome do amor e do cabresto.

Paixão é minha conduta, pois engloba todos os sentimentos possíveis. Paixão é furiosa e não aceita distâncias nem proximidades. Paixão é o amor, mas com a cara pintada para a guerra contra a indiferença, o enfado e o cotidiano enfadonho que todos casais sabem ser de uma chatisse imensa. Paixão é amor com tesão, amor com sofrer de saudade, amor com vontade não de ter, mas sim de ser enquanto é -- ou seja, ter a posse mas não ser dono. matematicamente a paixão é um erro: 1 + 1 = 1. Não dois, mas exatamente um. Paixão é o encontro perfeito de duas metades que o destino fez por bem deixar que se encontrassem.

Tesão você pode ter pela página central da Playboy. Pela vizinha. Pela vida solitária. Tesão é o "ficar" que banalizou o beijo e credencia todos a serem de todos sem pertencerem a ninguém. A clássica confusão entre liberdade e libertinagem. Sexo ao sexo, animal, grosseiro, sem o olhar apaixonado que liga no dia seguinte, deixa um bilhete desejando bom dia ou, mais simples ainda: sem sentimento.

Posse é o ciúme desmensurado, geralmente partindo daqueles que tem culpa no cartório. O Fulano de Tal trai e tem medo de ser traído, assim tranca com as correntes de sua própria insegurança a parceira que, até prove o contrário, está com ele por querer e não por ter dívida qualquer que a faça refém. Posse é o inferno da dúvida e o veneno da hipocrisia.

"O relacionamento perfeito é o equilíbrio. Amar a companhia, apaixonar todo dia. O tesão sem posse, pois a outra parte te deseja."
"Equilíbrio é, nada mais nada menos, que deixar a matemática da igualdade sem lado, contanto com as disparidades para criar a surpresa do novo."

O equilíbrio só é alcançado quando as duas partes não se interessam em vencer e sim em formar algo novo. A matemática que não bate.

Sou contra o amor. Luto pela paixão que me acompanha há -- no momento em escrevo estas palavras -- dois anos, seis meses e catorze dias. Paixão é amor sim, mas com tesão, sem posse. E essa posse da qual me abstenho calca-se na certeza de que minha amada sente por mim exatamente o que sinto por ela. Logo, para que querer ser dono do que me oferece de maneira gratuita?

Prefiro me apaixonar todo dia. E amanhã também.

26/09/2010

Em cada pessoa...


Em cada pessoa mora o silêncio de ser o que se é. A nossa verdade, o nosso real ninguém sabe... Nós sabemos do que somos feitos, o que  desperta o medo e o que gostaríamos que o outro entendesse.
E todos são iguais com as suas particularidades, suas manias insuportáveis, suas histórias importantes e sem importância. Suas metamorfoses, seus desejos.

Em cada pessoa mora uma pessoa. Uma criatura que tem sua vida, seu próprio tempo e suas vontades. Alguns com mais honestidade outros totalmente sem , mas sempre uma pessoa. Alguém que é capaz de amar, odiar, ser infeliz e infeliz. Um alguém.
Uma alguém que distribui sorrisos e lágrimas. Um alguém que sabe o que aperta o olho e o que solta a boca.

Em cada pessoa mora o segredo do que foi dito de verdade. O mundo seria mais bonito, mudo. A capacidade de verbalizar o que se pensa abre brecha para interpretação. Alguns não sabem interpretar textos, mas interpretam ideias e silêncios. Não erra quem pensa, peca quem fala o que pensa.

--- A individualidade é exercício longe do espelho. A sua individualidade você respeita, o que precisa aprender a respeitar é a dos outros. ---

==> Alguns falam tanto em julgamento final, que penso:  O melhor julgamento final é o pessoal.

23/09/2010

As novidades, nem tão novas

Apesar de uma virose desgraçada ter atingido  as três criaturas da casa, estamos bem. O lado bom é que todos nós perdemos aqueles malditos 3 quilos que perturbam a vida de quase todas as pessoas.
Vou dividir as novidades, nem tão novas da Editora que vem nos consumindo boa carga de energia nos últimos tempos. ( Isso é bom, não estou reclamando)

1- A querida Ana Mello que escreveu a orelha do livro "Contos que Ninguém Conta" do amado, salve salve marido lindo que tenho ( Meu, David Nobrega) divulgou no site Artistas Gaúchos. Pode ser lido AQUI

2 - A Revista Cultural - 7 está online e linda para variar. Essa em especial, teve mais trabalho pois foi a primeira vez que entrevistamos alguém ao vivo e com rádio, ou seja, tivemos que transcrever a entrevista. A Revista pode se lida AQUI 

3- Meu livro está SEMPRE quase pronto. Era para estar em Janeiro ( ano passado em Setembro, comentei que não iria acabar em Janeiro) Daí, desmontei ele todo e faz um tempo cheguei no denominador que precisava. Eu queria lançar em Outubro, mas a data será no início de Novembro.

4- Vários outros livros vão ser lançados nessa reta final do ano. Passei a utilizar reta final, pois já estou começando a receber cupons de final de ano do supermercado que frequento e isso obviamente não me deixa feliz, ok? Sinal que o ano está acabando e o trabalho acumulando.   Acompanhem os lançamentos  AQUI


Então, era isso! Lucas está jogando basquete cada vez melhor e  tirou notas ótimas no boletim. David está trabalhando tipo maluco mas está bem e lindo. Eu estou fora da TPM atualmente, e trabalhando tipo maluca e bem. Heitor pensa que é Gato e Juarez pensa que é cachorro... Ou seja, tudo seguindo o ritmo normal da vida! ;)

22/09/2010

VP


 Existe uma opção de conduta civil que tem me agradado, senão ao menos despertado o interesse em saber se é confortável: o vaca de presépio.

Acompanhem meu raciocínio, sempre lento e a estas horas, pré-almoço, ainda mais vagaroso:

1) O vaca de presépio não tem preocupações políticas. O que lhe for oferecido é quase como uma dádiva divina que merece, além de respeito, um enorme sorriso de admiração destinado àquele que o agrada, mesmo que momentaneamente;

2) Seguindo a mesma linha, o vaca de presépio (passemos a chamá-lo somente de VP, economizando dedos e teclas) é satisfeito profissionalmente, pois mesmo que lhe ocorra a pior desgraça possível -- ser comandado por um asno -- sempre aceitará com paciência qualquer eventual acinte por parte de seus superiores, mesmo custando anos de dedicação a um projeto, que fatalmente irá água abaixo;

3) O VP é um cara legal para casar, seja VP homem ou mulher. O VP assiste à ruína de seus relacionamentos com a mesma cara de entusiasmo que eu faria assistindo uma tórrida partida de gamão via web de 56kb. Assim, o VP é o cidadão amoroso que prefere dividir o bufê a comer de marmita todo dia, logo VP e corno, tudo a ver. Seja vaca ou boi de presépio;

4) VP, o original, acredita que tudo é questão de momento. Rei do deixa disso e de delegar á idade das pessoas o custo de suas más ações, como se fosse natural um adolescente ser idiota e se drogar ou engravidar; vê o mundo de um colorido baço e daltônico. E acha lindo;

5) No final das contas, o VP é o que é: nada. Veio ao mundo a passeio e sente-se feliz por isso. Sem maiores comprometimentos, pois sempre encontra alguém com menos preguiça para decidir qualquer momento mais complicado de sua vida, e assim vive, escorado nas atitudes alheias.

Não seria bom poder ser assim, ignorante dos fatos e atos que nos cercam? Já não foi dito antes que a ignorância é uma benção? Pois sendo vaca de presépio, quase santo por aquecer uma criança, ainda encontra aliados na Índia e até mesmo no Antigo Egito, onde Anúbis era boi, não vaca (Nota: boi não tem culhões. Quem fertiliza vaquinhas por aí são touros).

Sei lá, posso estar muito enganado, mas essa percepção de vida colorida que tem atacado uma grande porcentagem da população nacional é extremamente vantajosa, me parece. Pessoas que tem uma maneira de pensar tão diferente de mim e que sentem-se felizes com isso, acreditando na vida cor de rosa que apregoam os líderes políticos desta República dita democrática, devem ter lá suas razões. Talvez o errado seja eu, ao contestar quando dizem que determinados problemas óbvios que assolam a sociedade estejam resolvidos. Quem sabe quem seja daltônico e tenha a visão desfocada seja eu, que não acredito nas benesses ilusórias nem em discursos vazios, chatos e muitas vezes arrogantes.

Lá no fundo, sei que não estou errado -- no máximo enganado. Prefiro ser tido como chato, golpista, extremista, que viver pensando que com meu bafo estou aquecendo um cristo qualquer, enquanto o que fazem na realidade esses que assim acreditam seja tão somente disseminar o mal do despotismo óbvio, embora maquiado.


19/09/2010

Das utopias

"Utopia: Local ou situação ideais onde tudo é perfeito; O substantivo utopia vem das palavras gregas ou e topos, que significam sem lugar. Refere-se especialmente a um tipo de sociedade com uma situação econômica e social ideal. Freqüentemente a palavra é empregada para designar sistemas ou planos de reformas considerados pouco práticos ou irrealizáveis. " Dicionário Aurelio



A politica atual deturpou várias palavras e seus significados quando esses começam a habitar os discursos: Normal, democracia, ditadura, liberdade de expressão, censura, elite, proletário, burguesia e utopia.

Tirando todo o romantismo que cada político nos passa de sua experiência e a falta dela, existe um bem comum: O Brasil, a sociedade. O Brasil passa longe do lugar perfeito e do ideal. Quem jura que estamos avançando não olha para o lado, se olha não enxerga o que o outro vê. Vivemos a era do impraticável que quando passa do papel para o discurso parece que aconteceu.

A política nos tirou o direito à utopia, pois dizem que tudo está perfeito e o que não está será. A falta de utopia nos permite a demonização e a criação dos monstros... "Não pensa como eu, estás louco!" Não se combate a ideia, se combate o indivíduo da forma mais bizarra, demonizando... Deturpando querendo extinguir. O diferente é inaceitável merece o armagedon.

Em épocas de perfeição extrema ou quase lá fico tentando descobrir onde realmente moro. Meu Rio Grande do Sul pode ser diferente do seu, minha São Paulo pode ser diferente da sua e meu Brasil pode ser completamente o oposto do seu... Colocamos nossos espaços palpáveis no imaginário, na experiência pessoal. Ora, se o Brasil está perfeito os Estados também estão não interessa o partido que governe ou a cor da camisa. Mas não é assim que acontece, ou seja, a utopia praticável vem pela metade e de forma ideológica.

Existe algum Estado perfeito? Você mora no lugar ideal? Não conheço registro da perfeição em território brasileiro, logo se as partes estão mal o todo não vai bem. O todo não pode ter avançado se os Estados estão parados. O Brasil é o retrato da sua rua, do meu bairro, do trabalho do meu irmão e da cidade do fulano. No meu Brasil as ruas andam cheias de buracos e nem em todo lugar tem asfalto. No meu Brasil o povo anda fumando crack e maconha na calçada e eu tenho medo de comprar cigarro no boteco da esquina. No meu Brasil tem gente que está no ensino médio e não sabe o que é poesia. Ainda no meu espaço eu pago uma montanha de imposto sob a luz e a água e meu salário não aumentou. No meu Brasil eu preciso trabalhar dobrado para pagar colégio particular, pois sei que a educação pública não mudou. Quando reclamo do meu Brasil, reclamo do prefeito, dos vereadores, dos deputados, dos senadores, do governador e do presidente. Não isento ninguém da culpa... Nem eu. Tenho culpa pois devo estar votando errado desde os dezesseis anos de idade.
Eu quero acreditar que a utopia possa ser pensada, até porque quero crer que exista uma educação melhor, uma segurança segura, o trabalho dos sonhos... Enfim o lugar ideal.

No mundo não existe lugar ideal... Cada qual com sua utopia. Não comparo meu País com os Estados Unidos nem com a África. No caso dos EUA existe dois mundos de distância e com a África um oceano.

Quando penso em utopia penso em abismos. Existe um abismo imenso entre imaginar e acontecer, fazer e falar que vai fazer. Das utopias, conheço as impraticáveis, pois a perfeição não existe. Dos abismos o mais justo é a consciência de cada um.



PS. = Ando com preguiça das cegueiras partidárias transformadas em comentários de blogs e twitter. Aviso: Se é para ler besteira, abro os estatutos partidários e suas filosofias. Vocês já leram algum estatuto partidário? Vale a pena. Ali a utopia transformada em algo praticável.

PS. 2= Quero agradecer os amigos que me desejaram feliz aniversário. :D O dia foi maravilhoso ao lado de toda família, meu filho do qual tenho o maior orgulho e meu marido lindo, maravilhoso, inteligente e que me faz a pessoa mais feliz!

18/09/2010

Hoje o dia é meu!

Não, não estou errando datas.

Tudo bem, eu sei que o aniversário é da Letícia, ela merece os parabéns, blá, blá, blá. Só há um porém: o presente quem ganha sou eu! EU! E não divido, empresto, alugo e não me dou por satisfeito, recusando a segunda rodada.

Podem até deixar aí nos comentários mensagens de paz, alegria e muitos anos de vida. Egoísticamente, serão meus. Cerejas do MEU bolo.

Se mandarem presentes, que seja mais compatíveis com as preferências da aniversariante. Não me importo, pois no final, o presente será meu.

Ah, vão ligar para desejar um feliz aniversário de maneira mais íntima? Atendo. Pode deixar que passo o telefone para quem hoje completa 29 anos -- um quase-trinta  como ela mesma diz. E encham sua bola, por favor. Quanto mais melhor. Quanto melhor, maior meu presente.

Um sorriso de covinhas, os olhos um risco por conta desse riso. A respiração leve por ser querida, gostada. Até o andar muda, fica mais altivo e não há um mínimo momento onde o salto agulha enrosque desavisado em algum buraco de calçada. Desfila, sem o passo de garça com derrame das passarelas. Flana...

E esse, meus caros, é meu presente. O que recebo. Ver a pessoa que amo (melhor, me apaixono dia a dia mesmo naqueles dias) feliz, é imensurável em riquezas. Um prazer além, alado, uma bandeira desfraldada de um compromisso mais que assumido: sentido. Em todos os sentidos. O presente que dou é meu coração, mas isso já é velharia, eu sei. Mas com uma reforminha aqui e ali, ainda pode te aninhar pelo eterno.



Aos que aqui aparecerem, agradeço MEUS presentes. Quanto mais melhor, pois sei que a cada palavra (merecida) de afeto, esse sorriso se escancara e me encara, os olhinhos assim ó, espremidos.

Me apaixono, menina. Todo dia, por isso não uso o passado apaixonei. Não o "eu te amo" que já discutimos tanto, em nossas noites de Merlot. Paixão acesa, incandescente, quente, ardente e todas as rimas pobres que sejam prá frente.

Feliz aniversário, minha vida. E quando olhar este textinho bobo e atravessado, me olha de canto, já com a covinha armada para um beijo melado.

14/09/2010

Lugar de boneco é na caixa!


Essa mania louca de sofrer mesmo que não exista sofrimento. Essa busca pelo sofrimento nosso do dia a dia... Inventa-se uma dor de cabeça para migrar ao coração, uma unha encravada para chegar ao engessamento dos sentidos.


E somos tão leais ao sofrimento que passamos a acoplar o dos outros. No íntimo, rivalizamos tragédias pois ser feliz é fora de moda e a felicidade é capaz de irritar até a mais educada recepcionista de imobiliária quando pedimos para falar com o dono, pois queremos pagar dois meses adiantados de aluguel.



***



Não vivemos o efeito estufa, estamos em pleno efeito estafa! O mundo carrega olheiras, as jornadas são longas, irritantes. A enxaqueca é global e tudo é mais rápido que a buzina do apressado que atropela o sinal.

Alimentamos mal nosso corpo e nossa mente. Queremos o fácil, o rápido, o fast food, o resumo, a adivinhação e os vinte e cinco passos para conseguir juntar um milhão em dez anos. Adquirimos o semi-pronto, jogamos tudo em nossas viandas... Queremos o de graça.

Sofremos pela falta de tempo e pela sobra, andamos em eterno tédio da mesmice, do redondo ou do quadrado. Nós queremos os triângulos, as retas e as tortas!

Fingimos que escutamos quando estamos em Marte, fingimos que lemos quando passamos os olhos rapidamente, fingimos que dormimos quando ainda estamos pensando nos problemas diários.



***

Passado o efeito estafa, entraremos na era do gloss. A terra inteira vai ser coberta por uma camada de gloss e tudo vai ser brilhante, feliz, retumbante e igualmente irritante até a extinção geral da crítica verdadeira e das palavras que nos corrigem!

Todos terão orgulho de suas grandes cagadas, não vamos mais nos preocupar com o que os outros falam, não vamos mais ficar tristes e nem sofrer. Não nos arrependeremos de nada e por fim, estaremos prontos para sermos embalados em caixas e vendidos tipo bonecas nas lojas de brinquedos de Saturno.

12/09/2010

Uma quase fábula sobre porcos

Tuporã era o Grande Caçador e assim caía sobre seus ombros a responsabilidade de prover seus irmãos e irmãs de alimento. Outros, menos capazes, o auxiliavam, montando armadilhas para os animais ou pescando. Como por exemplo seu primo Aripeca, um membro estranho de sua comunidade. Aripeca não olhava para baixo, pois sempre parecia estar escrevendo com os olhos no céu. Sua grande habilidade não era a caça, mas sim criar objetos que Tuporã achava inúteis, como aquela coisa de levar água do Grande Rio até a aldeia. Ou a pedra quente que ele usava para fazer a carne ficar com gosto de carvão e que muitos dos membros da tribo tem hoje à frente de suas moradas. Tinha a rede feita com cipós, que o ajudava a levar para casa dez vezes mais peixes que qualquer outro pescador que dependiam somente de suas lanças afiadas. Para Tuporã, Aripeca era um sonhador que ficava criando coisas que só fazia com que os pequenos ficassem livres para a ociosidade.
Tuporã um dia humilhou Aripeca em frente aos grandes chefes, chamando-o de criador de besteiras. Após as gargalhadas dos membros da tribo, Aripeca desafiou Tuporã em uma caçada. Aquele que trouxesse a maior quantidade de carne em um só dia, ganharia. O prêmio seria o respeito, pois naquela tribo esse era a qualidade exigida para ser um dos grandes chefes, como os ali presentes. Tocaram suas lanças e assim ficou acertado. Segundo as regras criadas ali naquele momento, cada animal abatido deveria ser transportado para a Pedra de Sacrifício e ali deixados, sendo o lado esquerdo do Altar o depósito daqueles que morressem pelas mãos de Tuporã e, consequentemente à direita, os de Aripeca.
No dia seguinte partiram cedo, cada uma para um lado. Nas mãos de Tuporã ia apenas sua enorme lança. Aripeca levava às costas um grande fardo que ele habilmente havia embrulhado em peles para que ninguém visse o que seria.
Tuporã abateu um primeiro porco e ao ir até a pedra para a contagem, descobriu que Aripeca já havia depositado ali quatro animais, maiores que o seu.
Pelo meio do dia, Aripeca já havia conseguido caça para o mês inteiro e o sangue que jorrava de sua pilha de porcos tingia de vermelho o pequeno aclive que levava ao Altar. Do lado esquerdo, o lado de Tuporã, contavam-se apenas cinco animais, sendo um deles uma lebre que mal tinha carne sob sua pele.
Tuporã resolveu, após levar seu último animal, dirigir-se para onde deveria estar seu primo. Para ele, todos os grandes porcos haviam decidido se agrupar na mesma área e Aripeca beneficiou-se. Caminhava pé ante pé pelo tapete de folhas que cobria a trilha quando um leve farfalhar à sua esquerda fez com que ele se virasse e tomasse o rumo do lago. Vagarosamente aproximou-se e ainda escondido sob as sombras das frondosas árvores viu uma quantidade enorme de porcos refrescando-se. Estacou e viu, em meio tantos animais, um que sobressaia, fosse pela beleza ou pelo imenso tamanho.
Tuporã conseguiu, sem barulho algum, chegar a 10 passos do grande porco. Quando ergueu sua lança, fazendo de seu corpo um grande arco de músculos, um dos animais que estavam exatamente ao lado do enorme porco tombou, como que por mágica. Tuporã parou o movimento de arremesso ao meio do caminho, pois algo na expressão daquele animal que agora o encarava lhe era extremamente familiar. Não estranhou quando o porco ficou sobre as patas traseiras e, abrindo a boca de maneira descomunal, começou a vomitar um ser humano, pois dizem que porcos são animais mágicos. De dentro do maior porco que já havia visto surgiu Aripeca que sorriu-lhe. Assim ele havia conseguido tantos porcos, com mais uma invenção. Tuporã pediu-lhe que emprestasse o disfarce, mas estavam em competição e claro que Aripeca negou. Não houve outra alternativa para Tuporã, senão atravessar Aripeca com sua lança. Pelo bem da tribo, Aripeca deveria ter cedido, já que compartilhar é a regra maior. Apropriando-se do traje de seu primo morto, uniu-se aos porcos e gostou tanto de com eles conviver que jamais foi visto novamente, até o dia que um novo Grande Caçador atingiu-o com sua lança.

* * *

Tuporãs existem aos montes. Bebem e comem da criação de outros. Exibem um conhecimento que não é seu. E, pelo bem da "tribo", acreditam que toda e qualquer manifestação de sabedoria, inteligência, renovação, criação deva ser "compartilhado". Claro que esses Tuporãs modernos e cibernéticos não conseguem criar nada seu, por isso copiam e disseminam, "compartilhando". E a cada "compartilhamento", afundam mais na lama da ignorância, como fazem os porcos.

06/09/2010

a cura


Os tempos modernos são ditos como da tecnologia que possibilita a rapidez na informação, do aculturamento provocado por essa rapidez, pela má conduta de ditos representantes do povo e muitos outros adjetivos, realmente cabíveis.

Existe, porém, um desses tais adjetivos que ao menos para mim tem valor fundamental e que, em tempos distantes no futuro, acabará por ser a marca desta geração: a solidão. Não digo a solidão até certo ponto prazerosa, o momento seu que geralmente serve para purgar de nossas mentes o ruim do dia a dia, aquele tempo de solidão que você aproveita para ler, escrever, fazer a barba ou seja lá mais o que, íntimo, bom. Essa nossa solidão de hoje em dia é cibernética e forçada. Relações virtuais transformando antes bons sentadores de boteco em ótimos cadeirantes de computador.

Essa solidão gera a carência, exposta em letras garrafais por meio de redes sociais. Em um primeiro momento, o cidadão que se habitua a deixar o convívio social real em prol de uma vida virtual -- onde por vezes pode até ser mais respeitado por sua inteligência e bom gosto que na real -- até sente-se bem com o isolamento. Não precisa pagar couvert, não é obrigado a sentir cheiro de cigarro em ambiente fechado, não há o perigo da exposição real aos meliantes que pululam pelas ruas de nosso país mal-tratado.

Mas tudo que é bom, enfada. É o mesmo que substituir a paixão inicial de uma relação em amor acomodado, do tipo xixi de porta aberta. Vira monotonia e o ser cadeirante resolve reaprender a andar e tenta enfrentar o mundo real, ao menos para um chopis gelado com pizza que não venha em caixa de papelão. Nesse ponto nota que os amigos reais casaram, mudaram de cidade, morreram...

A carência, em estágio terminal, é capaz de fazer com que qualquer contato com pessoas reais seja um acontecimento. O entregador do China In Box vira amigão, mesmo sem saber. A caixa do supermercado ouve confidências sobre sua vida virtual que você jamais postaria em seu blog ou Facebook.

O Governo, atento a essas condições críticas que estão começando a fazer vítimas -- como o caso do neozelandês que se enforcou com o mouse -- resolver agir e com isso nasceu a figura do Recenseador.

Um alívio aos mais aflitos, o Recenseador entra corajosamente no ninho dos pardais azuis dos twittes e -- alegria das alegrias -- quer saber de sua vida! O Recenseador, além de ser de carne e osso, quer não só informações básicas. Com um sorriso nos lábios e oferecendo um café, é capaz até de que ele lhe questione sobre sua família, seus hábitos, seus rendimentos. Depois, com um "tenha uma boa tarde" educadíssimo, deixará sua vida, para alegrar a vizinhos seus, que você mesmo nem sabe quem são. Não tenha ciúmes quando isso acontecer, mas é uma fatalidade irremediável.

Há salvação, virtuais amigos. Aqui em casa o Recenseador esteve hoje. Um tanto assustado e com um rasgão no uniforme à altura do colarinho, o que me deu a certeza de que ele havia acabo de sair -- ou fugir, mais propriamente dito -- de nossa vizinha que não sai de casa desde que o ICQ era febre. O coitado fez-nos as perguntas necessárias, tomou um copo d´água com um calmante que a amada esposa lhe ofereceu e partiu, para alegria do vlogger da casa acima da nossa.

03/09/2010

E se tu sabes

E algumas vezes a gente divaga entre o ser e o ter e descobre que se é tanto e se tem pouco...


Porque se tu sabes o tanto que me sabe, deveria olhar para dentro... Quem sabe, saber um pouco mais do teu alento. E se te sei inteiro não sei nem metade do que tu escondes e chego a te saber em mim, na parte que me cabe do que sou.

E se tu cansas de me saber, deveria mudar o meu entender para talvez saber que só sei te saber da tua maneira inteira e não desprezo o apêndice da conta para te transformar no número que não é ideal.

Certo é que quando penso que sei tudo do certo é hora de parar e ouvir o que o outro pensa que sabe de certo. Porque me saber é fácil, me buscar nas letras e parênteses é tarefa de amador.

sei que me sei enquanto olhos, boca e ouvido o resto foi invenção tumoral e arrepio do lápis.

E se tu sabes onde me saber... Sabes que para ti é fácil me buscar.
 
 
==> Atualizei também o blog do meu site com poesia http://www.leticiacoelho.com.br/blog