12 de set de 2010

Uma quase fábula sobre porcos

Tuporã era o Grande Caçador e assim caía sobre seus ombros a responsabilidade de prover seus irmãos e irmãs de alimento. Outros, menos capazes, o auxiliavam, montando armadilhas para os animais ou pescando. Como por exemplo seu primo Aripeca, um membro estranho de sua comunidade. Aripeca não olhava para baixo, pois sempre parecia estar escrevendo com os olhos no céu. Sua grande habilidade não era a caça, mas sim criar objetos que Tuporã achava inúteis, como aquela coisa de levar água do Grande Rio até a aldeia. Ou a pedra quente que ele usava para fazer a carne ficar com gosto de carvão e que muitos dos membros da tribo tem hoje à frente de suas moradas. Tinha a rede feita com cipós, que o ajudava a levar para casa dez vezes mais peixes que qualquer outro pescador que dependiam somente de suas lanças afiadas. Para Tuporã, Aripeca era um sonhador que ficava criando coisas que só fazia com que os pequenos ficassem livres para a ociosidade.
Tuporã um dia humilhou Aripeca em frente aos grandes chefes, chamando-o de criador de besteiras. Após as gargalhadas dos membros da tribo, Aripeca desafiou Tuporã em uma caçada. Aquele que trouxesse a maior quantidade de carne em um só dia, ganharia. O prêmio seria o respeito, pois naquela tribo esse era a qualidade exigida para ser um dos grandes chefes, como os ali presentes. Tocaram suas lanças e assim ficou acertado. Segundo as regras criadas ali naquele momento, cada animal abatido deveria ser transportado para a Pedra de Sacrifício e ali deixados, sendo o lado esquerdo do Altar o depósito daqueles que morressem pelas mãos de Tuporã e, consequentemente à direita, os de Aripeca.
No dia seguinte partiram cedo, cada uma para um lado. Nas mãos de Tuporã ia apenas sua enorme lança. Aripeca levava às costas um grande fardo que ele habilmente havia embrulhado em peles para que ninguém visse o que seria.
Tuporã abateu um primeiro porco e ao ir até a pedra para a contagem, descobriu que Aripeca já havia depositado ali quatro animais, maiores que o seu.
Pelo meio do dia, Aripeca já havia conseguido caça para o mês inteiro e o sangue que jorrava de sua pilha de porcos tingia de vermelho o pequeno aclive que levava ao Altar. Do lado esquerdo, o lado de Tuporã, contavam-se apenas cinco animais, sendo um deles uma lebre que mal tinha carne sob sua pele.
Tuporã resolveu, após levar seu último animal, dirigir-se para onde deveria estar seu primo. Para ele, todos os grandes porcos haviam decidido se agrupar na mesma área e Aripeca beneficiou-se. Caminhava pé ante pé pelo tapete de folhas que cobria a trilha quando um leve farfalhar à sua esquerda fez com que ele se virasse e tomasse o rumo do lago. Vagarosamente aproximou-se e ainda escondido sob as sombras das frondosas árvores viu uma quantidade enorme de porcos refrescando-se. Estacou e viu, em meio tantos animais, um que sobressaia, fosse pela beleza ou pelo imenso tamanho.
Tuporã conseguiu, sem barulho algum, chegar a 10 passos do grande porco. Quando ergueu sua lança, fazendo de seu corpo um grande arco de músculos, um dos animais que estavam exatamente ao lado do enorme porco tombou, como que por mágica. Tuporã parou o movimento de arremesso ao meio do caminho, pois algo na expressão daquele animal que agora o encarava lhe era extremamente familiar. Não estranhou quando o porco ficou sobre as patas traseiras e, abrindo a boca de maneira descomunal, começou a vomitar um ser humano, pois dizem que porcos são animais mágicos. De dentro do maior porco que já havia visto surgiu Aripeca que sorriu-lhe. Assim ele havia conseguido tantos porcos, com mais uma invenção. Tuporã pediu-lhe que emprestasse o disfarce, mas estavam em competição e claro que Aripeca negou. Não houve outra alternativa para Tuporã, senão atravessar Aripeca com sua lança. Pelo bem da tribo, Aripeca deveria ter cedido, já que compartilhar é a regra maior. Apropriando-se do traje de seu primo morto, uniu-se aos porcos e gostou tanto de com eles conviver que jamais foi visto novamente, até o dia que um novo Grande Caçador atingiu-o com sua lança.

* * *

Tuporãs existem aos montes. Bebem e comem da criação de outros. Exibem um conhecimento que não é seu. E, pelo bem da "tribo", acreditam que toda e qualquer manifestação de sabedoria, inteligência, renovação, criação deva ser "compartilhado". Claro que esses Tuporãs modernos e cibernéticos não conseguem criar nada seu, por isso copiam e disseminam, "compartilhando". E a cada "compartilhamento", afundam mais na lama da ignorância, como fazem os porcos.

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