22 de set de 2010

VP


 Existe uma opção de conduta civil que tem me agradado, senão ao menos despertado o interesse em saber se é confortável: o vaca de presépio.

Acompanhem meu raciocínio, sempre lento e a estas horas, pré-almoço, ainda mais vagaroso:

1) O vaca de presépio não tem preocupações políticas. O que lhe for oferecido é quase como uma dádiva divina que merece, além de respeito, um enorme sorriso de admiração destinado àquele que o agrada, mesmo que momentaneamente;

2) Seguindo a mesma linha, o vaca de presépio (passemos a chamá-lo somente de VP, economizando dedos e teclas) é satisfeito profissionalmente, pois mesmo que lhe ocorra a pior desgraça possível -- ser comandado por um asno -- sempre aceitará com paciência qualquer eventual acinte por parte de seus superiores, mesmo custando anos de dedicação a um projeto, que fatalmente irá água abaixo;

3) O VP é um cara legal para casar, seja VP homem ou mulher. O VP assiste à ruína de seus relacionamentos com a mesma cara de entusiasmo que eu faria assistindo uma tórrida partida de gamão via web de 56kb. Assim, o VP é o cidadão amoroso que prefere dividir o bufê a comer de marmita todo dia, logo VP e corno, tudo a ver. Seja vaca ou boi de presépio;

4) VP, o original, acredita que tudo é questão de momento. Rei do deixa disso e de delegar á idade das pessoas o custo de suas más ações, como se fosse natural um adolescente ser idiota e se drogar ou engravidar; vê o mundo de um colorido baço e daltônico. E acha lindo;

5) No final das contas, o VP é o que é: nada. Veio ao mundo a passeio e sente-se feliz por isso. Sem maiores comprometimentos, pois sempre encontra alguém com menos preguiça para decidir qualquer momento mais complicado de sua vida, e assim vive, escorado nas atitudes alheias.

Não seria bom poder ser assim, ignorante dos fatos e atos que nos cercam? Já não foi dito antes que a ignorância é uma benção? Pois sendo vaca de presépio, quase santo por aquecer uma criança, ainda encontra aliados na Índia e até mesmo no Antigo Egito, onde Anúbis era boi, não vaca (Nota: boi não tem culhões. Quem fertiliza vaquinhas por aí são touros).

Sei lá, posso estar muito enganado, mas essa percepção de vida colorida que tem atacado uma grande porcentagem da população nacional é extremamente vantajosa, me parece. Pessoas que tem uma maneira de pensar tão diferente de mim e que sentem-se felizes com isso, acreditando na vida cor de rosa que apregoam os líderes políticos desta República dita democrática, devem ter lá suas razões. Talvez o errado seja eu, ao contestar quando dizem que determinados problemas óbvios que assolam a sociedade estejam resolvidos. Quem sabe quem seja daltônico e tenha a visão desfocada seja eu, que não acredito nas benesses ilusórias nem em discursos vazios, chatos e muitas vezes arrogantes.

Lá no fundo, sei que não estou errado -- no máximo enganado. Prefiro ser tido como chato, golpista, extremista, que viver pensando que com meu bafo estou aquecendo um cristo qualquer, enquanto o que fazem na realidade esses que assim acreditam seja tão somente disseminar o mal do despotismo óbvio, embora maquiado.


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