19 de dez de 2010

Me dão licença?

Há algum tempo atrás eu escrevi um texto aqui dizendo que não me meteria mais pela senda religiosa. É constrangedor você se declarar como um descrente em fenômenos mágicos, como para mim é o caso da religião, do conceito do divino e de tantas luzes espirituais.

Sou agnóstico, o que quer dizer que não renego a existência de um algo mais ainda desconhecido, mas desacredito dessa possibilidade. Provas, é somente o que peço.

Porém a caravana passa, muitos cães ladram e dia desses no twitter vejo hashtags promovendo esta ou aquela religião, tentando esclarecer o porque ela é a única e verdadeira. Senti a compulsão de responder aos argumentos -- infantis para mim -- mas me contive, pois claro que seria mal interpretado.

Vamos colocar as coisas em pratos limpos, certo? Não escolho minhas amizades por cor de pele, preferência sexual ou religiosidade. Não enquandro as pessoas como morais ou amorais pela fé que professem. E, basicamente, não me interesso pela dita fé. Sou prático e reto: não há deus algum que faça algo por você, se você mesmo não fizer as coisas acontecerem.

Naquele texto anterior a que me referi acima, disse que de uma certa maneira me sentia um aleijado moral. Essa é a real sensação que pessoas cheias de boas intenções tentam passar sobre mim. Agora, alguma vez que alguém me procurou, seja no mundo real ou no virtual, recebeu uma negativa a algum auxílio solicitado? Nunca, não é?

Existem assassinos de todos os credos, raças, cores, assim como existem ateus e agnósticos que levam uma vida mais pura e piedosa que muito beato tido como exemplo social. Como existem idiotas de todos os tipos, como o tal apresentador Datena, da Rede Bandeirantes:

"Olha, três bandidos invadem um sítio, roubam tudo que encontram, e antes de irem embora, estupram a mulher do caseiro. Com um detalhe: a moça tava grávida de três meses. Ela foi violentada na frente da filha de quatro anos. Quer dizer... que pena merece um sujeito que faz uma coisa dessas? Violentar uma mulher grávida, a mãe na frente da filhinha de quatro anos. Que pena merece? Ahn? Que pena o senhor acha que merece isso?E diz que violentaram várias vezes, não foi umavez só, não. Que pena merece um sueito desse aí? Falta de deus no coração. Fabíola Figueiredo, na tela.[...]" |Na íntegra|

Quem disse a ele que os criminosos eram ateus ou agnósticos? Como chegou o apresentador a formular essa concepção de que somente quem "não tem deus no coração" é capaz de fazer algo assim? Eu me considero totalmente incapaz de cometer um crime banal, por exemplo corromper um guarda de trânsito, logo jamais chegaria ao roubo e ao estupro.

Há também a manchete da semana. O Governador Cabral, do Rio de Janeiro, pergunta à assistência "Quem não teve namoradinha que já fez aborto?". Pelo que sei, o aborto é contrário às leis da religião que ele diz professar...

Eu poderia me valer de outros tantos fatos históricos que comprovam que essa crença em um (ou vários) deus(es) é a raiz de muita maldade hoje em dia. Poderia citar padres católicos pedófilos, muçulmanos explosivos, judeus franco-atiradores, lapidação, empalamento, circuncisão feminina, barbárie em nome de algum deus. Embora nada disso seja falácia, não é  esta minha intenção. Adquirir respeito espezinhando a crença alheia e seus defeitos é outro sintoma próprio da religião. Ou da política, esta também tomada por alguns como uma graça divina.

Outro motivo para este texto é a censura à propaganda no ônibus, coordenada pela ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos). Por que sou obrigado a ler manifestações voluntárias do deus de cada um e não posso propagandear minha vida sem mistérios, racional e aberta?

Chegaram a ver tais propagandas? Segue abaixo:



A melhor das quatro imagens é a que diz "TODO MUNDO É ATEU COM OS DEUSES DOS OUTROS". Ou o amigo judeu concorda com a divindade de Jesus? Ou Alá reserva sete virgens para cada homem nascido em nosso mundinho, independente da religião? Ou então Yemanjá pacificou os mares para a chegada dos Pilgrims ao continente americano?

Sim, é um desabafo mas não vou, como fiz anteriormente, me desculpar pelo texto longo.

Apenas, antes de fazerem comentários jocosos ou cheios de indignação pela minha óbvia ausência de fé, como já aconteceu antes, pensem que minha moral, meu caráter e minha integridade são maiores que a de muitos que vocês possam conhecer, inclusive naqueles que se ajoelham a seu lado, pedindo perdão por toda desgraça que tenha provocado em sua vida.

Pensem comigo: todos tem a liberdade de escolha quanto ao rumo que pretendendam dar a sua vida, menos no quesito religião, geralmente imposto pela família. Mesmo assim, há vários casos em que, na maioridade, crentes desta ou daquela religião tornam-se membros de outras seitas, por estarem desconfortáveis com acontecimentos ou preceitos de sua "fé de berço". Esse foi meu caso e após frequentar outras religiões, decidi não ter nenhuma. Foi e é minha decisão, não sujeita a avaliações de outros que não eu mesmo.

Quem lê meus livros pode conferir ali que tenho um conhecimento real sobre religiões, pois mais de uma vez me utilizei delas como bom mote para um conto. E para mim, a fé é nada mais que isso: um bom argumento para poder contextualizar a graça (ou falta dela) do ser humano comum.

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