17 de nov de 2010

"Ah, esse maldito fecho-éclair"


Apesar de estarmos juntos durante as 24 horas do dia, Letícia e eu temos tempo para divagar em assuntos extra-editoriais-literários somente ao nos deitarmos em nosso ninho de amor. É nesse momento em que arquitetamos planos intrincados para a paz no Oriente Médio, salvamos as baleias, temos nossas ideiazinhas de vingança contra vizinhos chatos -- o quê, diga-se de passagem, já não acontece mais, depois de nossa mudança cá para Vera Cruz -- ou concordamos com o Däniken. Enfim, como dizia alguém que não conheço, cama não é só lugar para dormir e bobiça.

Claro que há espaço para assuntos de menor importância e tópico de anteontem foi o "maldito fecho-éclair" de Kleyton & Kledir. Daí surgiu a história que a Janete Clair e o Fecho Éclair eram donos da Marie Clair e da Tuppeware, como a Letícia vos contou anteriormente. Por ser um tanto mais usado que minha esposa, algumas palavras que para mim possuem ares saudosistas para ela não fazem o menor sentido. Eu gosto sim de fecho-éclair, como gosto de vitraux, abat-jour, carnet, édredon, toillete e tricot. Ou seja, prefiro a palavra no original, nos casos mencionados, em bom e velho francês. Acho chic, fazer o que?

Deu para sentir que a reforma ortográfica e seus hífens desaparecidos e aportuguesamentos desmedidos tem feito comigo?

Gosto, por exemplo, de ler edições antigas de livros da Agatha Christie, onde Poirot aparece sempre com uma observação francesa (eu sei que ele é belga!) para petit choses do dia-a-dia. Me dá um prazer inenarrável livros que não tentam traduzir poemas embutidos em algum texto, pois várias vezes a tradução (sabidamente ruim, em muitos casos) faz com que o sentido dado pelo autor tome doril.

Eu sei que passamos por uma fase onde a educação é nivelada por baixo. Meu filho, prestando vestibular, me diz que danou-se em uma prova porque não sabia fazer cáculo de volume, algo que sei até hoje, tantos anos após terminados meus estudos. Se um adolescente não sabe algo básico assim, imagine então entender citações antes corriqueiras? Um exemplo? Pergunte a qualquer um nascido depois de 1990 se sabem o que significa o "dolce far niente", tão italiano quanto capuccino ou macarronada....

Sou a favor das dificuldades propositais. Se existe uma maneira mais rebuscada e culta, para que cazzo lançar mão do básico chulé? Existem próclises, mesóclises e ênclises, embora hoje a forma direta e abjeta seja a mais "legauuuu miguuuuu". Eca.

E pensar que toda essa linha de pensamento partiu de um maldito fecho-éclair, primo rico do zíper, deus de todos os velcros...

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