16 de dez de 2008

Lobo e Mausoléu

LOBO

Por mais habituados ao escuro que sejam meus olhos, este beco imundo me oprime em sua total ausência de luz.

Estou aqui escondido, aguardando por quem sabe uma vítima ou um inimigo. Mesmo com o fedor nauseante e onipresente em meio ao lixo, qualquer corpo quente e pulsante seria percebido por mim em segundos.

Mesmo tendo sido criado dentro dos padrões normais da fina educação de minha classe social, estes meus sentidos altamente desenvolvidos fazem a diferença de minha personalidade, alterando a todo instante meus rumos pela vida.

Meus pais, ao me expulsarem de sua casa ainda um garoto, imaginaram talvez que eu encontrasse a morte nas ruas, livrando assim a sociedade do empecilho que eles mesmos haviam gerado.

O primeiro corpo que tomei como alimento foi deplorável. Um bêbado imundo, com todos os gostos de todos os vícios humanos me fez sentir uma variação enlouquecida de sabores. Sabores que odiei e que me fizeram pensar que talvez esse não fosse o alimento necessário para minha vida.

Noites após, zonzo de fome e necessidade, uma prostituta jovem e recém-saída de seu apartamento da zona do meretrício, tão criança que me parecia sentir ainda o cheiro do leite de sua mãe, fora a melhor refeição que já houvera conseguido. Tenra, com um sangue doce e suave como se fosse vinho das melhores safras. Servi-me de seu sangue aos goles. Banquete ensandecido de carne crua e quente.

Fiz muitas vítimas desde então. Brancos ou negros, mulheres ou crianças, católicos ou judeus. Experimentei de todos e por cada um deles tenho uma preferência distinta. Como se a cada um comesse por hábito, afetasse o sabor de suas carnes.

Mas hoje não busco ser um gourmet. Quero apenas carne em forma de fast-food. Tenho fome e quando fico neste estado não ouso escolher.

Perdido em meus pensamentos, quase perco a chance de uma vítima. Ela andava apressada, coberta por um sobretudo que lhe escondia totalmente o corpo. A chuva que começara naquele instante cobria meu corpo nu com uma gelada camada de vapores.

Ataquei-a pelas costas, buscando quebrar seu pescoço. Desequilibrada mas ainda consciente, ela gritou, um grito mudo que ficou guardado em sua garganta que eu iria estraçalhar. Em seus lábios vi claramente se formar um nome que não ouvia há muito tempo. O meu nome.

Sim, eu a reconheci e ela me reconheceu. Minha mãe humana estava ali, esperando por mim como um prato de velhas recordações.

Sem esperar mais, mordi e rasguei seu corpo, até o momento em que ouvi a última batida de seu fraco coração. Ela não deveria ter usado meu antigo nome, pois hoje me chamo Lobo e me alimento de pobres humanos desavisados que insistem em passar em meu caminho. Mas posso me chamar Misericórdia, mamãe, e, assim, livro inúteis como a senhora dessa vida inútil.

Comi tudo, mamãe. Não sobrou nada. Só não consegui comer seus olhos, que insistem em me fitar, mudos.

(Autoria de David Nóbrega - Livro Uns e Outros - 2008)

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MAUSOLÉO

Estoura o peito semi - árido,

... Com gotas em falsete de um grito longo e cálido...

Deitada no casco das pedras hoje,

Imaginando colcha de retalhos.


De forma débil,

Anda de quatro riscando o soalho...

Vê na parede mofada os retratos antigos trocados,

... Inflamação cerebral...

Loucura furiosa invadindo almas para viver no passado...

... Vezes brinca de arrastar algemas nos quartos,

Mas por hora prefere olhar crianças pendurada de ponta - cabeça nos galhos.


Misturada ao antigo cimento da matéria,

Provoca explosões nos canos...

Há cinco décadas desabitada,

A casa vive das lembranças da moça pálida.


Fez da sua antiga morada,

Um mausoléu encantado...

"Nana" bonecas nunca menstruadas...

Faz uso de cantigas esquecidas

Arcaizadas,

... Não tem pulsos para cortar...

Carrega na boca o gosto do suco acerejado de décadas atrás.


Preenche a casa,

Alma penada

E fica a janela...

Preservando sua paz...

Espreitando invasores.

... Ali eternamente ela jazz ( e Jaz)

( Autoria de Letícia Coelho - Ensaios Amadores... Ou não! - 2008)