29 de out de 2008

Romantismo

O Romantismo nasce das novas possibilidades que surgem com a indepencência política e suas consequencias culturais, o novo público leitor, as instituições universitárias e o nacionalismo ufanista que varre o País. Existe o sentimento de criar uma literatura autônoma que expresse o Brasil, e o sentimento dos brasileiros.
Os valores do romantismo europeu, adequavam - se as exigências ideológicas dos escritores brasileiros da época, uma vez que a literatura clássica e classicismo representavam a dominação dos portugueses, o romantismo volta - se para a natureza e o exótico e aqui, tudo isso era exuberante. O nacioalismo romântico vai se representar nos seguintes elementos: indianismo, sertanismo, natureza, procura da língua brasileira, entre outros.
O Romantismo é compreendido em três gerações:

Primeira geração, conhecida como nacionalista ou indianista: Os temas nacionais era valorizados, o índio era tido como o "bom selvagem".
Alguns escritores que se destacam nessa época:

Gonçalves Dias:

"I - Juca Pirama
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? — ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: — de um povo remoto
Descende por certo — dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: — no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incubem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira
Entesa-se a corda da embira ligeira,
Adorna-se a maça com penas gentis:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia
Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
O índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar," (CONTINUA)



Gonçalves de Magalhães:

"Preces da infância

Vós me vedes, Deus Eterno,
Como eu sou tão pequenina;
Minha alma é inda inocente,
Tão pura como a bonina.

Débeis como minhas vozes
São inda meus pensamentos;
Do mundo nada conheço,
Nem prazeres, nem tormentos.

Qual tenro botão de rosa
Que à sombra da rosa cresce,
Sem temer o vento, e a chuva,
De um frouxo raio se aquece.

Mas pouco a pouco crescendo,
Desabrocha, e cheiro exala,
Orna o prado que a sustenta,
E da roseira é a gala.

Assim eu filhinha tenra,
A meus pais devo esta vida;
A seu lado eles me educam,
Por eles serei querida.

Hoje inocente me chamam!
Oh como é bela a inocência!
É a virtude dos Anjos,
É das virgens a ciência.

Vós, oh Deus, que podeis tudo,
Concedei-me por piedade
Que este aroma da inocência
Me acompanhe em toda idade.

Oh meu Deus, dai à minha alma
Puro e santo pensamento,
Como o perfume do templo,
Que sobe ao vosso aposento.

Dai a meus pais longa vida,
E àqueles que à minha infância
Prestam socorros contínuos
Com tanto amor e constância.

Que felizes, que ditosos
Por vós, oh Deus, protegidos,
Passem seus dias, seus anos
Como astros, sem ser sentidos.

Vigorai minha fraqueza
Co'a vossa sabedoria.
Oh Deus, ouvi minhas preces,
Escutai-me neste dia."


Além de Araújo de Porto Alegre e Teixeira e Souza.


A segunda geração é conhecida como mal do século, fase ultra - romântica e byroniana. Os escritos são carregados de pessimismo, valorização da morte, tristeza e uma visão decadente da socieadade.

Alguns autores que se destacam:


Casimiro de Abreu:

"Minh'alma é triste


Minh'alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.


E, como a rôla que perdeu o esposo,
Minh'alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.


E como notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.


Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minha'alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.


Dizem que há, gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
— Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque — mas a minh'alma é triste!" (CONTINUA)


Alvares de Azevedo:

"Minha desgraça

Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito blasfema,
É ter para escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela."


Junqueira Freire:

"Martírio

Beijar-te a fronte linda
Beijar-te o aspecto altivo
Beijar-te a tez morena
Beijar-te o rir lascivo

Beijar o ar que aspiras
Beijar o pó que pisas
Beijar a voz que soltas
Beijar a luz que visas

Sentir teus modos frios,
Sentir tua apatia,
Sentir até répúdio,
Sentir essa ironia,

Sentir que me resguardas,
Sentir que me arreceias,
Sentir que me repugnas,
Sentir que até me odeias,

Eis a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!

Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger dos dentes,
Eis o penar do inferno!"




- A terceira Geração é marcada pela crítica social, um dos escritores que mais de destacaram na época foi Castro Alves:


"O povo ao poder



QUANDO nas praças s'eleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.


A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.


Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.


A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu'infâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.


Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.


No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".


Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.


Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.


Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações."

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