8 de abr de 2011

Nós mudamos

Lucas é estudioso pacas e isso é lindo. Mas é daqueles estudiosos neuróticos, não pode faltar na aula, não pode se atrasar e chora se fica doente e não pode comparecer no colégio. Nada parecido comigo, porque eu juro que só depois que me tornei pedagoga entendi o quanto eu era uma aluna chata.
                É possível notar que o filho é estudioso, quando os colegas começam a ligar e perguntar sobre a matéria. Isso aconteceu em um domingo pela manhã aqui em casa e eu fiquei tremendamente emocionada. Daí a percepção de que o filho é inteligente não é só da mãe, mas dos colegas. É quase momento de filmar e guardar no computador... Momento mágico!
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                Ontem aconteceu algo realmente triste na escola de Realengo, no Rio de Janeiro. Não vou tecer comentários ou mesmo teorias sobre o ocorrido, até porque a "grande imprensa" já faz o sensacionalismo neurótico de sempre, não se importando com o psicológico das crianças que presenciaram tudo ou com os pais dos falecidos. Quando Lucas ficou sabendo do que aconteceu, comentou que poderia ter sido no colégio dele e pediu para ler a matéria. Pensei vinte vezes antes, mas deixei ler.  Ele ficou preocupado com a possibilidade de algum aluno entrar atirando no colégio e começou a fazer comentários sobre o que iria fazer nesse caso.  Quem não se coloca no lugar daquelas pessoas? Esse é o modo correto de pensar, mas nesses momentos sempre aparece um "ser humano" que nos ensina que alguns ainda não possuem cérebro, e sempre é possível ser ridículo fazendo comentários absurdos sobre o que aconteceu.
                Daí que me deparo com uma professora, mestre em fisioterapia que dá aulas em uma Universidade, que escreveu no Twitter a seguinte frase: "Hoje nem é dia de Cosme e Damião e já estão metendo bala nas crianças!" Não preciso comentar sobre o status da minha indignação. Xinguei-a, assim como fizeram várias pessoas, mas o que se sucedeu foi a ironia... A velha e estúpida ironia dizendo que aquilo era humor negro e que quem não entendia, deveria voltar para o colégio. Continuou na timeline dizendo que essa "polêmica" toda a estava promovendo o Twitter... Veja só o ponto que atingimos!
                Hoje pela manhã, a tal professora – mestra! -- havia deletado do perfil as frases de "humor negro", sendo essa a atitude normal que acontece com quem sai escrevendo qualquer merda que lhe povoa a cabeça. Eu ia colocar o printscreen da frase e o nome da cidadã neste texto, mas resolvi não fazer isso. Quem achar interessante que peça na caixa de comentários, que eu envio por e-mail.
                Várias pessoas viram o comentário infeliz e tantos outros comentários mais infelizes ainda. A Anny mobilizou algumas pessoas e divulgou frases da professora que, sinceramente, se desse aula para meu filho eu reclamaria junto à direção da escola, pela falta de compostura e compromisso com a profissão. Professor também é gente e pode errar, mas lembro quando estava na faculdade e um Mestre comentou que professores tinham tanto poder de matar quanto médicos; a diferença é que o professor pode matar a essência de um aluno com um erro de aprendizagem, pode ferir de forma silenciosa a vida da criança e esse tipo de erro profissional deixa marcas para sempre.
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                E ainda existe compostura? Claro que sim e todo idiota deveria ter conta no Twitter para ficar mais fácil sua identificação. O Twitter revolucionou a comunicação, e todo otário-bobo-alegre um dia vai escrever algo para tentar causar. -- Causar: v. tr. 1. Ser causa de.2. Originar. 3. Produzir. Melhor colocar fantasia de tigre e sair andando na rua, não?
                É... Pois.
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                Ontem à noite, Lucas fez de tudo para não ir ao colégio hoje de manhã... O que de certa maneira denuncia o que a tragédia em Realengo mudou nele. Lá no fundo ele estava com um pouco de medo de acontecer algo parecido no colégio onde estuda. Hoje pela manhã se atrasou e quase perdeu a van. Penso que todos mudamos um pouco com essas mortes, obviamente em nada comparado a quem viveu de perto essa tragédia. O mínimo que se espera de quem não sente absolutamente nada com o que aconteceu é ao menos o silêncio, para respeitar a dor daquelas famílias e crianças. 

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