30 de ago de 2010

A pergunta que se quer fazer de verdade.

Uma amiga querida de infância, apareceu em minha casa com um grande pacote de presente nas mãos. Feliz da vida, pois adoro presente e penso que todas as pessoas do mundo fazem parte do mesmo grupo, abri o embrulho com um super sorriso no rosto.

Era uma tela grande horrorosa com uma moldura que parecia de papelão. Um mau gosto tremendo, definitivamente não era o tipo de pintura que eu colocaria em minha parede. Nem no banheiro para falar a verdade -- aquilo realmente era medonho. Eu fiquei olhando para aquele negócio pensando em como ela realmente não me conhecia, enquanto eu acreditava no contrário. Afinal de contas, em mais de dez anos de amizade verdadeira, a pessoa ao menos precisa entender seus gostos. Rezei mentalmente para ela não perguntar o que achei do presente, pois eu teria que falar a verdade.

Ela falou que a tela combinava muito com minha sala e perguntou se eu havia gostado. Em primeiro lugar, olhei cada canto de minha sala e não encontrei nenhuma semelhança com aquele monte de riscos sem noção e de cores nada a ver umas com as outras. Como ela ofendeu minha sala, perguntei de forma bem sincera de onde ela tirou que minha sala combinava com o quadro. Ela não se chateou... Baixou a cabeça e disse um simples: "você não gostou". Ela entendeu. Perguntei mais uma vez a ela de onde saiu que eu poderia gostar de uma pintura nesse estilo, sem forma... Não gosto de arte assim. Aí veio a bomba:

"Fiz de propósito, eu precisava saber sua opinião de forma sincera. Entrei em uma aula de pintura faz 2 semanas e essa é a primeira tela que fiz. Não queria te contar que era minha pois queria ver sua reação"

Mesmo com uma amizade de mais de dez anos ela não me conhecia, pois achou que eu iria contar uma mentira florida e pendurar aquela coisa ridícula na sala. Com certeza ela não lembrava da vez que eu disse que o cabelo dela estava péssimo e que ela havia engordado no mínimo uns 10 quilos, quando apareceu com aquela calça jeans atolada. Mais de dez anos de sinceridade jogadas no ralo!

Lembrei de todos os meus momentos de franqueza (eu sei, de vez em quando até em demasia), e disse que estava triste porque ela não me conhecia. Eu nunca mentiria sobre nada e não emitiria uma opinião falsa só para agradar e ministrar placebo ao ego alheio.

Desde aquele episódio, minha amiga tomou certa distância. O quadro ela levou de volta. Continuamos mandando e-mail de piada durante bom tempo, e telefonando para desejar feliz aniversário.

Um dia recebi um convite para uma exposição dela, no verso estava escrito:

"Quem disse que não tenho talento, amiga?"

Pensei: "Ela continua sem me conhecer. Nunca falei de ausência de talento e sim de uma situação, o medonho primeiro quadro que ela pintou na segunda semana de aula."

Algumas amizades se afastam para não deixar saudades. Um amigo que não nos conhece por mais que conviva durante um bom tempo, deixa de ser amigo quando não faz a pergunta que quer saber a resposta. Se me perguntasse se tinha talento, eu iria responder que sim... Com o tempo.  

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