15 de jul. de 2010

Sabedoria infantil


Ficar em casa, confortavelmente paramentado de mendigo é uma conquista do relacionamento. Quase um xixi com a porta aberta, você só pode vestir aquela roupa da liquidação de 1998 se confiar na pessoa com quem você convive.

Tenho uma blusa de lã, gola rulê (de quando era moda gola rulê) que vira e mexe passa por outro pescoço que não o meu, e acaba abraçando por mim o corpo de dona Letícia. Essa troca de roupas -- mesmo que uma só mão, já que o que é dela não me servirá jamais -- é uma troca de confidências. Uma continuidade de segredos trocados em horas silenciosas, quando somente os rostos colados podem se fazer ouvir. Enfim, o estabelecimento da intimidade entre os casais.

Claro que existem absurdos. E Letícia, amada minha, comete alguns, despropositados. E olhem que não somente eu que penso assim. Lucas, meu enteado, tem o mesmo ódio ela calça de moletom verde ("Presente do meu irmão" -- sic) e da blusa do Mickey ("Eu trouxe da Disney!" -- aos 15 anos...).
Hoje durante o almoço, fartamente servido por aquela lasanha que só eu sou capaz de fazer, Lucas opinou que, como o pai dele viria buscá-lo para as férias de inverno, seria melhor a mãe trocar de roupa. Sim, o Mickey e a calça de moletom verde.

"Meu filho, estou em casa. Essa roupa é tão confortável!" -- disse amada minha.

"Pode ser, mas é horrível" -- foi a resposta do cidadão de 9 anos. E continuou: "Mãe, se troca...".

Eu rindo, claro. Essa é uma situação que se enquadra naquelas brincadeiras de família. O rabo solto para piadinhas conhecidas.

Dona Letícia, do alto de sua sapiência, sentenciou:

"Olhem aqui, vocês dois, está frio e esta roupa é bem quente!"

Sem demorar para pensar, seu Lucas respondeu:

 "Então tá. Quer dizer então que no verão tu vais andar pelada por aí, é isso?"

Claro que amada minha foi trocar de roupa, depois dessa...



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