30 de mai de 2010

A capacidade de reinventar

Caminhamos para uma nova década e as esperanças de um novo século - que, contrariamente ao que muitos pensam, não iniciou em 2000 e sim em 2001 -, estão tomando emprestadas as cores pastéis das tintas velhas expostas ao sol. Um futuro melhor, um novo horizonte onde os povos acabariam com as guerras,  a fome seria arrotada sem saudades e curas fariam com que os planos de saúde quebrassem por falta de doentes não se concretizaram, e em muitos casos acabaram por piorar.

Tenho a razão do pessimista em minhas análises, geralmente guardadas para mim até que seja perguntado sobre o que penso sobre algo ou alguém. Geralmente erro, mas digamos que estou sempre me preparando para o pior. E o pior é sempre o porvir.

Vejam nossa política: os extremos de um lado e de outro crescem mais que grama depois de chuva de verão. Dessa grama brotam grilos militantes, irritantes em seu coro desfinado, cada um querendo falar mais alto não sobre as qualidades de seu preferido, mas sim das burrices do oponente. Um 'toma lá / dá cá / te devolvo depois' insuportável. A Política hoje é somente partidária, ou seja, da pior espécie. E os grilos continuam sua chata e monótona competição.

Culturalmente nossa decadência é ainda mais óbvia. Ouçam às rádios e me digam se é possível ficar sintonizado em alguma delas que seja comercial e não ficar bestificado com a baixa qualidade musical. Vão dar uma espiada nas obras de arte feitas de sucata e lixo. Leiam as poesias que nada mais são que acessos intelectualóides de ex-amadas(os) amarguradas(os) sofrendo a dor do corno, que Lupicínio, este sim, sabia cantar e poetar de dar dó em quem o ouvia ou lia.

Estamos sofrendo da falta de capacidade de reinventar e reciclar valores antigos, historicamente provados como bons.  Ao invés do rapazinho estudar nossa MPB e seus ícones, copiam o jeito meloso e baixo nível de grupelhos sem qualquer noção do que seja arranjo, melodia e canção.  Leem as orelhas de um livro e tornam-se doutos dos saberes ali contidos, entre capa e contracapa. Acham maravilhoso Godard, mas o que esperam ansiosamente é a Guccy de quatro desamadas, chatas.

Temos que educar. Insistir que nossos filhos leiam e invés de deixá-los assistir Pokemón, por que não um dos clássicos da Disney, que depois podem ser lidos de outras maneiras em livros mil? Escutar Calypso, meu filho, te deixa insano/idiotizado, assim como funk te mostra a pobreza musical em seu extremo. Vá ouvir Maria Rita, por exemplo, uma das poucas representantes da nova MPB que conseguem destaque.

Não é necessário ser patriota nem nacionalista para separar o joio do trigo da boa cultura nacional. Inclusive é completamente démodé taxar pessoas disto ou daquilo, pois a tal liberdade de expressão (sarcasticamente hoje um eufemismo de libertinagem de pensamentos)  lhe permite assumir que tudo seja normal.

Se é assim - podemos acreditar que andar de pés para o alto é normal -, por que então insistem no feio, no pobre, no ridículo? Vamos assumir que podemos ser normais mesmo sendo nostálgicos, saudosistas ou mesmo um desavisado que goste de coisas boas e ensinar aos mais novos que existe sim luz no fim do túnel, que inevitavelmente passa pelo bom-gosto, pelo bom-senso e pela educação.

Eu não acho possível recolocar o Brasil nos trilhos da real brasilidade, onde o samba de roda convivia pacificamente com a música popular e com o bom rock em nossas rádios. Também penso que só aparecerão grandes escritores hoje em dia se ensinarmos secundaristas a ler novos autores. Isso sem falar de pintores que façam poesia em tintas...

Como disse antes, me preparo para o pior. Mas bem lá no fundo, quem sabe, haja esperanças querendo aflorar, mesmo que estejam tão enterradas que não veem a luz do sol há muito, muito tempo.

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