30/11/2009

O Continuum

Continuum:

«Série longa de elementos numa determinada seqüência, em que cada um difere minimamente do elemento subseqüente, daí resultando diferença acentuada entre os elementos iniciais e finais da seqüência»


Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

No Brasil as coisas sempre caminham em torno do tempo: no futebol, existiu a Era Pelé. Na F1, Senna, durante muitas temporadas. Roberto Carlos ainda é o Rei e seu tempo parece que não acaba.

Todas as referências de nosso cotidiano estão, de uma maneira ou outra, ligadas a um "denominador", para que nos situemos em relação ao tempo dos outros com quem convivemos.

Na política existe um apelo maior. Os mandatos viram eras históricas que o sucessor, sempre que contrário, faz questão de apagar da memória dos votantes. Antigamente era comum que se apagasse os nomes dos faraós anteriores, onde seria gravado o nome do governante-bola-da-vez. Hoje, aqui em Bananarama, isso não acontece.

O Presidente Metalúrgico e seus seguidores tem a péssima mania de relembrar a Era FHC como um atraso na vida do pais. Afinal ele dilapidou o erário, ao promover privatizações. O que chega ser estranho, uma vez que hoje todos carregam seus celulares para baixo e para cima, mesmo em salas de espetáculos, como todo mal-educado brasileiro deve fazer. Isso só para ficar em um exemplo de fácil digestão.

Continuando nesse mesmo exemplo, outro dia, via Twitter, uma defensora ferrenha do lulismo ficou bravinha porque eu lhe escrevi o que está ai no parágrafo acima. Ela me contestava que as privatizações criaram mais problemas que benefícios, etc e etc. Como todo lulista, ela tem pontos de vista congelados pela cartilha e não enxerga nada além. Tapada, neste caso, não é eufemismo. Continuando, sua maior birra é que as operadoras de telefonia são péssimas no quesito atendimento, são caras, cobram o que vc não comprou e tal. "Oras bolas, cara lulista, a ANATEL está aí para isso", respondi-lhe. "Não funciona" - retruca ela. "Mas quem gerencia a ANATEL é o Governo Federal, lulista, há quase 8 anos!". Pronto, me bloqueou.

Esse continuum que nos dá uma sequência de fatos possíveis somente se atrelados uns aos outros é o que falta na memória política de nossos coleguinhas que usam seu título eleitoral de maneira banal. O Militarismo errou? Claro, mas também acertou bastante. Sarney errou? Perfeitamente. E erra até hoje e vai continuar errando enquanto quiser, posto que será novamente eleito nos próximos pleitos ou até quando a saúde lhe permitir. Collor, Itamar erraram? Óbvio e quanto ao Collor - embora inocentado - continuará conseguindo reeleger-se quantas vezes quiser, como Sarney. Fernando Henrique errou? Sem dúvida. Lula erra? CLARO QUE NÃO, uma vez que nunca sabe de absolutamente nada do que ocorre com seus discípulos, com seu filho bom-de-bola, com o caixa do Partido ou seja lá com o que for. Lula só sabe quer quer Dilma para presidente.

Todos erraram e acertaram, cada um a seu tempo. O problema maior é que hoje FHC continua errando. Tivemos o apagão? Foi sabotagem do Fernandinho. Enchente? FHC. TCU empaca o PAC? FHC. Congresso atuante? FHC. Unha encravada? F-H-C!

Lembro que na campanha Lula vs. Collor, o PRN tinha em mãos um dossiê sobre um suposto aborto sugerido por Lula a sua namorada da época. Mesmo Lula não tendo perdido a eleição por conta disso, ficou o boato, que não foi reaproveitado depois disso. Hoje FHC assume um filho e o PT se arma para tirar proveito dessa informação nas próximas eleições. Pessoas chatinhas essas, já que a vida conjugal ou biscatal de cada um não tem absolutamente nada a ver com a capacidade de alguém ser bom ou mau administrador. Não interessa quem FHC, Lula, Renan ou qualquer um outro(a) comeu(deu), desde que não seja o cidadão pagante de impostos que banque a criação do rebento.

O continuum também deveria servir de base para aqueles que querem comparar governos: Lula só está conseguindo manter o Brasil de pé (ou o Brasil só se mantém em pé, apesar de Lula), por conta de erros e acertos passados, em uma cadeia inquebrantável de fatos. O Bolsa família, orgulho lulista, tem sua origem em uma outra bolsa, a Escola, pensada por Betinho, criada por dona Ruth Cardoso, como parte da Rede de Proteção Social.

A única área deste atual governo que não se enquadra no continuum histórico de nosso pais é a das Relações Exteriores. Você pode espernear por sermos hoje amigos de Chavez, Khadafi, Ahmadinejad, Zelaya e etc, pode ficar realmente ofendido com as posições adotadas pelo chamado pelo Reynaldo Azevedo como o "megalonanico" Amorin e as coisas continuarão indo pelo lado factóide, aspirando uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, a troco de sabe-se lá o que. "Nunca antes na história deste pais", como eles gostam de dizer.

Por isso coleguinhas, lulistas ou não, atentem para o conceito histórico do que acontece hoje em nosso país. O Brasil foi descoberto há mais de 500 anos e garanto-lhes que não foi Lula quem capitaneava as caravelas que aqui aportaram.




28/11/2009

Hoje é aniversário do meu amor!

Hoje faz aniversário, uma das pessoas mais importantes da minha vida...


Catei água no vento
E dela roubei a nau do tempo
Na curva reta
Me destes o tão sonhado sossego
Envolvo meus braços na tua silhueta
E deito a cabeça no teu peito.


Sei da água que me sacia
A da boca tua,
Que vem com o sopro do teu vento
Nesses segundos o mundo para...
Viram horas e mais horas
De um único momento.

O tempo se isenta
Envelheço e rejuvenesço no teu corpo
...Não sinto a hora de dormir...
Ou já acordei faz tempo
Mas o que é ele?
Na vida de quem o abandonou
E hoje só faz sorrir.


No final de cada curva
Existe uma reta...
As tuas são seguras
E mergulho no teu porto
Sinto amor em te olhar
Não preciso do tempo...
Só de teus ventos
Me sinto acordar.


Melodia de dó que vira pó
Volta ao princípio...
Sem fim
Tua Silhueta que afaga meus braços
Teu peito que aconchega minha cabeça,
O olho que balbucia...
Sempre te tive dentro de mim.


**** E como sempre falamos um para o outro... A paixão e o amor se conquista todo dia e com certeza sempre aumenta... O nosso aumenta!

O rosto levemente rubro

O gosto acerejado na boca

O velho tinto no cálice...

Quero-te em todos os outubros

Agarrado na minha velhice.

Sinestesias doces...

Em goles marcantes,

Do sussurro da tua poesia.


***** Não é difícil ficar apaixonada por ti... Eu gosto até dos teus defeitos, que não são muitos... Dão um certo charme...

Ai que se me dessem mais de uma vida

Escolheria te amar, te cuidar, te viver

Em todas elas...

É entrada de mão única, onde a marca é tua

Impossível não o ser.


Ai que se me dessem mais notas

Colheria todas as rosas

Para te mostrar a música ainda não lida

Não construída,

Aquela que te traduz em solfejos de temperos...

Faz inesquecível o nosso amor.


Ai que se me dessem mais papel

Escreveria noites fundas de palavras inteiras

Despejaria um romance

Contando

Como foi que me enlaçou.


Ai que se me desse mais um motivo

Correria para te ser, te entender...

Mostrar – te ao certo

O que me faz feliz direto

Que é o teu sorriso de canto que me acordou.


Ai que se me dessem mais horas

Aumentaria nossos dias

Porque te acarinhar é sonho em vida

É página ainda não lida,

Não criada...

É minha pétala negra de flor.


Ai que se me dessem mais da tua presença

Não existiria mais tempo nublado

Muito menos o calor abafado...

Somente eu no teu peito colado...

Beijando tua boca,

Iniciando longas horas daquele nosso amor.


**** Uma vida é muito pequena para te amar sabia? E se existirem outras vidas... Com certeza vou estar sempre ao teu lado....

Ando Alice,
No País de tuas maravilhas...
Sem relógio
E sem rainha,
... O tabuleiro de xadrez se desfez...


Sou aquela princesa que despertou
Com teu beijo de príncipe
Se reergueu...
Sem bruxas,
E sem anões,
... A maçã não vingou, se perdeu...


Vês?
Tens a magia nos lábios,
Tornou meu mundo enfeitado!


O cavalo branco era um avião
Dentro dele...Veja só...
Palpitando meu coração,
Estavas tu,
Meu sempre príncipe encantado
O mesmo dos meus sonhos...
Agora vive ao meu lado!


Feliz Aniversário meu marido, meu companheiro, meu tudo...

Te amo!

26/11/2009

Falta gentileza e sensibilidade...

"Abençoado quem se abstém de falar, nos poupando da evidência de que não tem nada a dizer."
(George Eliot)

Hoje o mundo está tão corrido que as pessoas não conseguem ser gentis...
É aquela capacidade ímpar, de não dizer "bom dia", "boa noite", "como tu estas?" , "o que anda fazendo? ", ou mesmo um "estava pensando em ti..." É o não querer saber do outro, e despejar o que pensa o que quer o que acha ser importante... A velha história do dar conselho como se fosse modelo ou sem ser convidado. Falta gentileza sincera em alguns, em outros sobra o que certamente faz uma boa balança entre, o mundo de quem vê mundo e o mundo de quem só vê o que quer no mundo... Duas diferenças importantes.
Inversão de valores... Se eu pego dinheiro é pq foi merecido, se tu pega é roubo; se eu traio são coisas da vida, se tu trai é pecado; se eu tô na merda isso acontece com todo mundo, se tu tá na merda foi falta de planejamento. A "pena"quem julga é quem sofreu, ou quem se coloca de espectador e conselheiro sem ter a visão de dentro... Querendo ver de fora e opinar como se fosse de grande valia para o mundo do outro.
- Eu sigo acreditando em pessoas, e penso que esperança é a força de quem espera... De quem espera alguém para fazer por ele, sem esforço sem nada. -
Duvido muito que seja importante saber como fulano ou beltrano gastam seu tempo de "lazer" ... Isso não me interessa mesmo, eu gosto de coisas reais. Posso ter uma opinião errada sobre as pessoas, mas o máximo que faço é contar para minhas amigas o que acho, e posso estar errada... Ninguém sabe tudo, as pessoas realmente não sabem nada!
Tem tanta coisa errada não é mesmo? Que se fazem presentes, somente quando acontece com nosso filhos... Tem pai e mãe que não estão nem aí para seus filhos, mas tem outros que se importam, que longe ou perto fazem realmente a diferença - positiva - apóiam estão do lado. O meu problema não é só meu, o teu problema não é só teu... Vamos resolver, até pq a vida é curta e dela ninguém leva nada. Só lembranças e que sejam boas... As ruins abstraímos - deixamos de lado - ignoramos.
E hoje o mundo está corrido... Sempre foi corrido... Falta gentileza, sensibilidade...
O que é mais importante que uma saia curta, em um País que exporta carnaval e fio dental? É a hipocrisia nas pessoas, sigo dizendo é a dita inversão de valores... Está tudo errado, bem errado... E nós somos palhaços esperando o próximo absurdo para opinar, defender, apedrejar... - É sempre mais fácil culpar 1 do que 700 mesmo quando a maioria é burra!
Falta tempo para se organizar, falta tempo... E é ruim quando ninguém entende, ou quem deveria entender não entende não é mesmo? E cada um escolhe seu caminho... Mesmo que possa parecer para o outro errado... Quem disse que o outro é certo?
- Eu classifico, Tu classificas, Ele classifica, Nós classificamos... Eu qualifico, Tu qualificas, Ele qualifica, Nós qualificamos... - O resultado disso tudo nunca é certo.
Abro o jornal e vejo vários notícias banais... O que eu tenho a ver se FHC tem filho fora do casamento? O que acrescenta na minha vida saber com quem os artistas namoram? O que vai mudar meu dia ler que fulana tem celulite? Não me interessa! Eu me interesso em saber que o filho do Lula está usando avião da FAB, e que daqui a pouco teremos uma candidata a presidência que já foi guerrilheira... Isso me preocupa muito!
Apesar de faltar gentileza, sensibilidade e de alguns não darem nem bom dia antes de vomitar suas opiniões sem serem convidados, eu acredito nas pessoas boas que existem por aí, acredito mesmo que tem tanta gente legal que não compensa meditar ou mesmo se preocupar com as amarguras dos outros. Existem momentos que merecemos ser especiais... É o mergulho dentro de si e quem está assim é pq tem vida para se preocupar.
Resumindo:" gentileza gera gentileza" - mantra de vida!



* Pessoas, estive ausente dos blogs pq estava com trabalho acumulado e pq é final de ano e preciso estudar com meu filhote! Logo, sigo minha rotina de blogueira e comento os inúmeros posts de vocês que se acumularam do reader ;)

15/11/2009

II Coletânea Scriptus - A Livre Escrita

<== Encomende seu exemplar da II Coletânea Scriptus - A Livre Escrita, direto com os autores. Visite a página da Coletânea no site, e saiba como entrar em contato com cada um. ==>

Um Degrau
Existe um ditado popular que diz que todo homem (e aqui deve - se considerar que o dito popular é mais antigo que a quebra de preconceitos e do politicamente correto, logo incluamos as mulheres no contexto) deve, para sentir - se completo, plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.
Aqui, em mais esta coletânea editada pela Novitas, está a consumação dessa afirmação; alguns já contribuíram para a nossa literatura com livros próprios, porém temos entre os quinze autores que formam "marinheiros de primeira viagem" que resolveram e ousaram! - publicar seus textos em papel pela primeira vez. Se não publicaram ainda um livro solo, ao menos fazem - se agora presentes no grande painel das letras e ideias.
Nós da Editora Novitas consideramos que a coletânea é um degrau: para muitos, apenas o primeiro de uma longa e prolixa carreira como autor e por isso mesmo valorizamos tanto a todos que se aventuram em mostrar algo que certamente poderia até estar já coberto pela poeira do esquecimento, em uma gaveta qualquer. Para outros tantos, serve como laboratório de estilo e gênero literário.
Aos leitores que aqui chegaram, nosso respeito. Em um mundo de correria e de meias informações, aquele que se compromete a ler um livro é um aventureiro que com certeza descobrirá novos mundos - imaginários ou não - que os autores aqui presentes se dispõem a lhes mostrar.
A nossos novos amigos, os Autores: nunca desistam. A magia da escrita é um dom que não deve ser nunca esquecido ou protelado. Sigam em frente e ajudem, com suas palavras, a formar as próximas gerações.
David Nóbrega, Editora Novitas

Nada é mais livre do que escrever.
Escrevendo, conseguimos dar a conhecer histórias - nossas ou de outros - não importando de onde sejam.
Criamos situações, maquiamos personagens.
Assumimos a primeira pessoas, escrevemos como se fosse verdade...
Somos quem não somos e por vezes mostramos quem não gostaríamos de ser.
Morremos, vivemos e amamos em linhas corridas pelas páginas de livros que nos tornam livres, pois escrever ; é liberar pensamentos, exorcizar todos os medos, desintoxicar a alma. E nessa miscelânia de sentimentos provocar as emoções de outros, nossos leitores.
Aqui estão quinze pessoas - Adriana, Bruno, Carlos Eduardo, Carlos Emerson, Cezarina, Cristiano, Flamarion, Gilmar, Isiara, Madalena, Marco, Nanda, Natália, Ninah e Wemerson - que poderiam facilmente serem chamados de joões, marias e afins, pois são escritores. E escritores tem algumas almas a mais, cada um com seu nome próprio, para contar histórias - deles ou de outros.
Letícia Losekann Coelho
Editora e Poeta




14/11/2009

Contravenção: brasileiro!

Algo que não entendo é o fascínio que celebridades internacionais tem pelas favelas cariocas.


Desde o Príncipe Charles dançando com a carequíssima passista Pinah lá pelos idos de 1978 até a presença loira-deslocada de Madonna, acompanhada por Cabral e imenso séquito, passando por sei lá mais quantos stings e afins, existe em mim aquele sentimento de inutilidade patiótica: onde eles veem exotismo e cultura, vejo bandidagem e prostituição. Se uma geyse incomoda muita gente, várias lumasdeoliverira incomodam muito mais.



Muitas vezes comentei esse meu anti-patriotismo cultural com amigos e todos concordaram comigo. Eu deveria ter nascido, no máximo, tibetano. No mínimo, europeu.



Vejam bem: não gosto de futebol, que dizem ser o esporte nacional. Acho irracional ficar olhando 22  (25, se contarmos bandeirinhas e juiz) , se digladiando por una pelota. Dá uma para cada um e pronto, pô! Acabam as brigas de torcida, os cartões vermelhos e o feriado prolongado pré-entre-pós Copa do Mundo. A vida pára para o futebol passar.



Também não gosto de Carnaval. Incitação à prostituição, com suas mulheres desnudas, alardeando para quem vê a Globo: "Olha só, somos facinhas!". Depois, quando uma moça de fino trato viaja ao Exterior e é tida como prostituta, fica pau da vida. Samba enredo também não é música (tirando aquela do Caetano, lá pelos anos 80. Mas não me pergunte qual, porque também não gosto do Caetano). 



Para completar o trinômio de minha rebeldia nacional, a cerveja. Que culpa tenho eu se prefiro um bom Cabernet chileno ou -- maravilha das maravilhas -- o  velho amigo de tantas horas, Jack Daniel´s (de preferência Single Barrel)? Cerveja deveria ser vendido como diurético (pausa: a Caracu e a Guiness até que tem porque serem bebidas.).



Viram? Não sou brasileiro, acho. A cegonha deve ter errado e invés de me entregar para pais ansiosos que me aguardavam em alguma Villa no Mediterrâneo, em meio a tonéis de vinho e massas perfeitas me derrubou no hospital do Parque Dom Pedro, em São Paulo. Assim,  o meu eu que deveria ter sido entregue no Brasil, acabou indo bater com os costados lá no Mediterrâneo, ocupando a vaga que deixei em aberto, por acidente. Talvez ele seja viajante e vez por outra compareça ao Sambódromo. Ou mesmo tenha virado um craque de fama internacional, fazendo seus gols em terras esrangeiras. Ou então virou político e hoje corrompe/é corrompido em sua própria Villa, lá na terra que deveria ter sido a minha.



Se alguém for viajar por terras além fronteiras e conhecer um cara que tenha minha idade (aniversario este mês ainda, completando 43 invernos), e pareça mais brasileiro que eu, avise-o deste texto. Quem sabe ele não aceita trocar?




09/11/2009

Deputado Fulano - Uma ficção



8:00





Fulano é Deputado Federal por um partido cuja sigla possui um "C" maiúsculo. "C" de comunismo. Vários partidos possuem esse "C" em sua formação, mas vários substituíram por um "S", um "T"...



Mas isso não importa. O que importa -- e Fulano sabe disso -- é que a ideologia demagógica é comum a todas elas. Como os grandes líderes no antigo regime na extinta URSS sabiam que, se religião é o ópio do povo, o povo pode acreditar em qualquer coisa ou ideia repetida de maneira exaustiva, dita e carregada de emoções enterais.


Hoje, dia que se comemora a queda do Muro de Berlim -- símbolo máximo da cisão entre dois mundos antagônicos e cruéis, cada um a sua maneira -- o Deputado Fulano vai subir à Tribuna da Câmara para discursar. Usará todo o tempo disponível para enaltecer o fato histórico, a união entre os povos e se der tempo, comentar o último jogo do Corinthians.



12:00



Em um restaurante escolhido a dedo por seus assessores, Deputado Fulano está almoçando com certa moça, também ocupante de cargo eletivo. Discutem sobre como está difícil safar-se do sempre presente "grampo" telefônico. Como a mídia os expõe de uma maneira cruel a seus eleitores, etc, etc, etc. Um lauto almoço, regado a vinho francês, que o nobre Deputado paga com prazer, já que a verba de gabinete é uma fonte inesgotável.





15:00



Depois de almoçar a colega, Deputado Fulano está em seu gabinete, dando os últimos retoques em sua bela pessoa. Um pouco de base para dar um pouco de cor a seu rosto, uma nova gravata Hermes, uma escovada no paletó. Não que ele necessite fazer qualquer movimento, pois ali estão todos os seus assessores: os que escrevem seu discurso, os que lhe penteiam, os que atendem aos telefones para informar que o nobre em questão encontra-se "em reunião".


16:00


Deputado Fulano está agora discursando a um Plenário quase vazio. Assim como ele, muitos tem "compromissos junto a suas bases" e não puderam comparecer. Mas ele está ali, rosto congestionado, voz embargada, gestos desmedidos. A câmera de tv da estatal que lhe oferece holofotes gratuitos chega mesmo a mostrar uma lágrima solitária que escorre por seu rosto e lhe borra ligeiramente a maquiagem. São ditas frases de efeito, como "um mundo para todos", "o Muro simbolizava a tragédia da II Guerra Mundial", "Não permitamos que isso aconteça novamente, jamais!".



Ao descer da Tribuna, sob aplausos daqueles poucos que ali se encontram, sorri. Está satisfeito com a reação e com os tapinhas nas costas.



Eu, sentado ali no canto da galeria, anoto mentalmente os erros históricos do Deputado comunista. O Muro havia sido erguido pela ex-URSS, a referência máxima para os "socialistas" terceiro-mundistas. O Regime havia assassinado milhares de pessoas que ousaram tentar passar por suas barreiras de concreto e iniquidade. O Muro separava uma Europa moderna e capitalista de outra bem diferente, onde o governo achava-se no direito de intervir na vida particular de todos, sob a alegação de querer o bem maior. Para mim, a queda do muro não fez com que o capitalismo atingisse ao leste europeu, mas sim, liberou comunistas como o nobre ali embaixo para andar livremente pelo mundo...



Sigo os passos do nobre deputado até a porta, onde uma carro importado o espera, preto e reluzente. O motorista lhe abre a porta, ele entra e somem pelo cerrado, em direção ao bairro mais caro da Capital, em claro excesso de velocidade.



18:00



Alzira abre a porta da mansão para seu patrão. O Deputado Fulano entra sem mesmo notar o olhar de admiração de sua empregada. Ela está ali há anos, mas não se cansa da estampa de seu patrão.



Enquanto o nobre Deputado aproveita um demorado banho, em um ritual de sais e cremes, Alzira serve a mesa para o jantar. Hoje ela vai aproveitar que seu ídolo está de bom humor e vai-lhe pedir férias, algo que nem sabe realmente como funciona. Trabalhando de segunda a segunda, sem horário fixo, nunca teve tempo nem vontade de conhecer seus direitos. A única coisa que ela realmente sabe é que o presidente garantiu que a vida dela melhoraria. Isso aconteceu ali mesmo, naquela sala de jantar decorada com certo exagero, quando houve uma reunião para acertar coisas que só eles entendem. Por ela, o presidente seria Fulano, mas se ele achava melhor que ela votasse em outro, oras olas, ela votaria. Afinal, ele é bem mais entendido que ela nesses assuntos. O presidente lhe perguntou sobre o que ela queria da vida, na hora em que ela entrou para servir o café, logo após o jantar. Ela respondeu que queria vaga na escola para a filha, que havia ficado lá na sua terra natal. O presidente anotou e prometeu. Se não cumpriu, com certeza não é culpa dele, mas sim de um tal de acordo que ela nunca sabe o que significa.



Enquanto estava distraída com seus pensamentos, entra Fulano, trajado em um robe atoalhado vermelho, presente daquela deputada do almoço. Senta, e começa a comer, sem dizer palavra. Quando perguntado sobre as férias ele grita, esbraveja e pergunta se Alzira acha que dinheiro dá em árvore. Mal-agradecida por todos os salários-mínimos que recebera até hoje, deveria ter um pouco de consideração e perceber que estamos em crise.



Alzira retira-se para a cozinha, esperando que o patrão termine o jantar. Obtusa como é, acaba sentindo-se culpada e teme que seu patrão acabe tendo alguma indigestão, por sua causa. Nunca mais ela lhe perguntará sobre férias.



22:00



Na Tv a cabo, Fulano se vê. Lindo e imponente no alto da tribuna. Aquele Armani tem um corte perfeito e como a cor do tecido destacou seu corpo malhado. Nem percebe-se a cinta que lhe comprime o abdomen que insiste em crescer cada dia mais. Pena que havia tão pouca gente.



Acende um Cohiba e entorna mais uma dose de Johnny Walker Green. "Missão cumprida".



07/11/2009


Nosso Presidente  já foi de tudo um pouco: candidato eterno à presidência, metalúrgico, perseguido político, etc, etc, etc. E olhem que ainda tem um tempinho livre para ser Jesus...