31 de out. de 2008

Dia de quê mesmo?


Inicialmente retratado como um endiabrado, é uma criança indígena, com uma perna e de cor morena, com a diferença de possuir um rabo.

Na Região Norte do Brasil, a mitologia africana o transformou em um negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira, imagem que prevalece nos dias de hoje. Herdou também a cultura africana do pito, uma espécie de cachimbo, e da mitologia européia, herdou o píleo, um gorrinho vermelho.

Considerado uma figura brincalhona, que se diverte com os animais e pessoas, fazendo pequenas travessuras que criam dificuldades domésticas, ou assustando viajantes noturnos com seus assobios. O mito existe pelo menos desde o fim do século XVIII. O saci não tem amigos, vivendo solitário nas matas. Também conhecido como menino de uma só perna.

Wikipedia

Hoje, pelo calendário de datas comemorativas brasileiro, seria comemorado o Dia do Saci.

Apesar disso, como nós brasileiros somos um povo sem cultura, comemoramos o tal halloween.

Seja para parecermos um pouco cultos, seja para fazer de conta que falamos inglês ou mesmo porque sejamos um bando de desmoriados quando o assunto é cultura nacional, vamos atrás de travessuras ou doçuras.

Eu, que adoro o folclore nacional e seus membros desmembrados portadores de deficiências físicas (o saci e a falta de uma perna, o curupira com seus pés ao contrário, a mula que não tem cabeça), me irrito com essa investida da (pouca) cultura americana em nossas paragens.
Como escreveu a Lunna em seu blog:
Aqui em São Paulo há uma combinação de elementos vários: italianos, alemães, japoneses, judeus, chineses e muitos outros povos, cada qual com a sua cultura. Por assim dizer há espaço para tudo.

Óbvio que é assim e sempre será. Em qualquer local onde se instale um costume diferente, este torna-se interessante. Se for divertido, religioso ou simplesmente "legalzinho", os locais acabam por se envolver no assunto, assimilando, modificando e recriando sobre esse costume.

Porém, se pode notar que os povos citados pela Lunna instalaram-se aqui, fazendo parte da grande e miscigenada Nação brasileira. Tornaram-se parte de nosso contexto de nacionalidade, de nossa genética, que é o de ser afável e chegado em uma festa.

Quanto ao halloween, lá nos Estados Unidos uma festa comercial (leia aqui. Minha irmã mora lá, logo sabe do que fala), aqui está sendo transformado em uma importação de cultura.

Posso lhes afirmar que de cultura não há nada em comemorar seres do além. É uma má interpretação de um tema mais antigo com fundamentos outros que nada tem a ver com o que se faz hoje em dia (a explicação disso está naquele primeiro link, no topo do texto, e no blog de minha irmã).

Existem ótimas culturas espalhadas pelo mundo e foram, utilizando-se talvez o conceito histórico que prega que o conquistado aprende e se utiliza dos costumes do conquistador, justamente escolher a pior delas. Que tal instituir então o dia do selkie (Os Selkies são duendes marinhos encontrados em torno das ilhas Órcades (Orkney), Feroé e Shetland. Selkie significa "seal" (foca) e é comum ver as tais criaturas nessas paragens; o nome Órcades procede do escandinavo antigo "Orkneyjar", que significa "Ilha das focas"-fonte).

A título de informação: o dia do Folclore é comemorado a 22 de agosto. Por conta da tal blogagem coletiva ( óh céus, ainda fazem isso!), tem gente misturando a proposta de quem montou a tal blogagem (assimilação de culturas), com a assimilação de folclore, coisas completamente diferentes.

Quebrem a vassoura das bruxas, crianças. E vão fazer um carinho no saci que ele merece. E não esqueçam de ser politicamente incorretos e levar o fumo para seu cachimbo.

Aniversário de Drummond e Parnasianismo

Carlos Drummond de Andrade não é um poeta parnasianista, porém hoje é aniversário dele! Aqui vai a homenagem:

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.

Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.

O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.( Mais sobre a biografia aqui)

"José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?


Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?


E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?


Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?


Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!


Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?"

"As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor."


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Parnasianismo: As principais definições do parnasianismo são o culto a forma , o que de uma certa maneira reagia contra o romantismo. O Objetivismo e o descritivismo, abordavam temas mitológicos e eram rigorosos com as normas e técnicas nas composições... Exploravam muito o soneto. Nessa época também foi definid "a arte pela arte", onde os poetas não tomavam partido e não se comprometiam com questões políticas.


Alguns escritores da época:

Raimundo Correa:

"A Cavalgada

A lua banha a solitária estrada...
Silêncio!... mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada.

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando,
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada...

E o bosque estala, move-se, estremece...
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce,
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solitária banha... "


Olavo Bilac:

"In extremis


Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! De um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! Postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...

E um dia assim! De um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...

E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! E este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais a morte...

Eu com o frio a crescer no coração, — tão cheio
De ti, até no horror do verdadeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!

E eu morrendo! E eu morrendo,
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! A delícia da vida!"


Vicente Carvalho:

"Saudade

Belos amores perdidos,
Muito fiz eu com perder-vos;
Deixar-vos, sim: esquecervos
Fora demais, não o fiz.

Tudo se arranca do seio,
— Amor, desejo, esperança...
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz.

Roseira cheia de rosas,
Roseira cheia de espinhos,
Que eu deixei pelos caminhos,
Aberta em flor, e parti:

Por me não perder, perdi-te:
Mas mal posso assegurar-me,
— Com te perder e ganhar-me,
Se ganhei, ou se perdi..."


Alberto de Oliveira:

"Vaso Grego

Esta de áureos relevos, trabalhada

De divas mãos, brilhante copa, um dia,

Já de aos deuses servir como cansada,

Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.



Era o poeta de Teos que o suspendia

Então, e, ora repleta ora esvasada,

A taça amiga aos dedos seus tinia,

Toda de roxas pétalas colmada.




Depois... Mas, o lavor da taça admira,

Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas

Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,



Ignota voz, qual se da antiga lira

Fosse a encantada música das cordas,

Qual se essa voz de Anacreonte fosse."


30 de out. de 2008

Tudo bem. Não sou um ás da língua portuguesa e muito menos pretendo ser. Gosto de estudar, mesmo que em outras línguas. MAS QUANDO QUERO FAZER ISSO!
Aqui em casa temos NET. Uma porcaria de serviço, mas é o que tem. Ontem estava eu zapeando para ver se achava alguma coisa que prestasse para assistir (claro que não achei) e parei um tempo na Warner Channel.
Os comerciais, frequentes além do normal. A língua dos anúncios da emissora (no total de 4 por intervalo) em espanhol. Eu falo português. Não quero ouvir espanhol. Se quisesse assinaria a CNN en Español. Não tenho problemas em entender a língua de Fidel, mas não quero que me seja enfiada goela abaixo em um canal PAGO. Estou reclamando a toa?
Fui até o site deles. Na entrada uma animação bonita e um eSScolha su língua...
Escolhi e fui até o link para mensagens. Um "Fale ConoZco" medonho. Fechei os olhos para mais um erro e mandei a mensagem, dizendo que não vou mais assistir a essa merda de canal, de de bom só tem o Cold Case. Na confirmação do envio:

Olha bem, clicando na imagem e me diz o que significa a mensagem no quadro preto.(eu enviei mais uma mensagem porque esse quadro some rápido...claro que não chamo "eee!"). Além da TV mostrar a programação em espanhol a Warner, em princípio uma potência televisiva, deve usar algum tradutor online para traduzir seu site.


Nós, brasileiros, somos um povo cordato demais. Aceitamos a invasão de lixo em nossas casa tanto pela TV aberta quanto pelas assinaturas. Nem nossa própria língua materna protegemos desses horrores, como o que se vêm na imagem acima.

Cá prá nós? Mais vale um livro mesmo. Em português ou não, mas quem escolhe sou eu.

Realismo

Os escritores passam a usar a linguagem popular, tramas psicológicas, objetivismo, crítica social e visão irônica da realidade. O realismo se manisfestou principalmente na prosa, fazendo duras críticas ao comportamente burguês, a disparidade social e a igreja.

Alguns escritores:

Raul Pompéia:

"Joias da Coroa

Capítulo I

- Ah, ah! Ah, ah!... É o que você pensa. Ninguém se arroja a uma empresa destas, sem saber o terreno em que vai pisar. Eu sou um jogador que sempre conhece as cartas de que dispõe e as do seu adversário... É o que faltava... Um homem habituado às dificuldades de todas as empresas espinhosas ...
- É exato, o senhor tem dado provas do que é capaz... aquele escandalozinho da rua... que se abafou tão bem, aquela caçada da Milica... Sem a sua habilidade as coisas não iriam tão macias, mas...
- Mas... que?! Pois você quer pôr em dúvida a minha confiança?! Garanto-lhe que o negócio não trará compromisso a ninguém... Você já tem cinco anos de serviço, tem garantias... Cá para mim, provoco os céus e a terra a virem estremecer a minha influência neste paraíso de bambus...
- É exato, ele precisa do senhor... quem ficará mal hei de ser eu. Se vou para a rua sem mais nem menos...
- Se é este o seu receio, eu o tranqüilizo... Assino, se você quiser, um papel de dívida, comprometendo-me a dar a mesma recompensa, seja qual for o resultado no negócio... Ora, imagine que nos venha daí um bolo de 600 contos... Dar-lhe-ia boa porção. Todos lucraremos maravilhosamente... Se não conseguirmos nada, ainda assim você estará perfeitamente, porque, se a coisa for impossível, não ficarão vestígios da tentativa, e, se formos surpreendidos... Não! Não seremos! O êxito é certo... As jóias do duque estão depositadas numa sala grande do lance esquerdo do palácio, num armário envidraçado. Se você continua teimando em não querer...
- Teimar não! eu estou apresentando dúvidas, porque ninguém deve...
- Não quero saber de doutrinas. Aceita ou não aceita? Responda já, sem muitas histórias... Está caindo a noite... Ou fazemos hoje ou nunca! Amanhã podem ter sido retiradas as jóias. Vamos deixar fugir a mais risonha fortuna... É impossível... Se você não aceita meu convite para acompanhar-me, eu irei só...
- Realmente não há muito tempo para reflexões e o negócio convida...
- Então?... O que decide?...
- Eu... Eu...
- Vamos!...
- Aceito,aceito.
- Ora graças! É preciso ser-se bastante idiota para hesitar tanto num caso destes. Ter nas mãos uma riqueza e temer perigos... Ora, Inácio, você não merece a sorte que lhe está reservada...
- Ainda veremos, sr. Pavia...
Esta conversa se travara no interior da vasta quinta do duque de Bragantina.
Um dos interlocutores era um indivíduo todo de branco, baixote, gordo, peludo na cara como um cachorro d'água, de fisionomia um tanto indistinta naquela hora, que ia adiantando o crepúsculo e os objetos começavam a esfuminhar-se na uniformidade da noite.
A pessoa com quem ele falava era um sujeito em mangas de camisa, fino, comprido, teso como um soldado, de cara rapada, olhar habitualmente baixo e movimentos receosos, denunciando que todo aquele retesamento era teatral; aquela espinha, tão enrijada para trás, caía muitas vezes para a frente em profundas continências, e aqueles ombros, que pareciam feitos para dragonas, apenas carregavam librés.
Este indivíduo era um criado, evidentemente; o outro, saberemos em breve quem era.
Os dois conversavam sobre um negócio importantíssimo. Tratava-se de adquirir da noite para o dia uma enorme fortuna. Um símile da sorte grande de jogatina legal.
Achavam-se ao portão de uma espécie de jardim sem cultivo, no fundo do qual elevava-se uma boa casa, através de cujas venezianas se distinguia a claridade das luzes que se acendiam lá dentro por causa da hora.
- Posso, pois, contar com seu auxílio? - perguntou o homem de branco ao criado.
- Sim, senhor. Desde que o senhor nada teme, eu também nada quero nada temer...
- Muito bem! Isto é o que se exige. Tenha confiança em mim e ajude-me que teremos sucesso...
- Mas diga-me primeiro o que devo fazer...
- Precisamos conversar...
- Preciso de ordens...
- Mas está serenando aqui... entremos para casa...
Pavia e Inácio atravessaram o jardim na direção da casa. Subiram os quatorze degraus de uma escada dupla, que levava à porta da entrada, e desapareceram no vão escuro que a porta fazia.
A noite caíra.
A quinta do duque passara insensivelmente das vacilações do crepúsculo para as trevas decididas das sete horas de um dia curto.
As moitas de bambus condensavam-se em amontoados impenetráveis de escuridão; os gramados do parque alargavam-se, confundindo-se com as alamedas de areia numa vasta toalha de crepe; para longe, recortavam-se as montanhas negras. Dir-se-ia que a natureza acabava de cobrir-se de lutuosos merinós, se não fosse o cetim azulado do firmamento, e se não chovesse o riso das estrelas.
Entretanto, reinava movimento no meio da noite. Os numerosos habitantes da quinta do duque, lacaios e protegidos, recolhiam-se naquela ocasião às suas habitações agrupadas em aldeia, nos fundos do palácio. Consumiam a última atividade do diário, preparando-se para o repouso confortante da noite. Na massa de habitações acumuladas ao norte do parque, que fundiam-se com a noite, começavam a aparecer pontos luminosos. Era a candeia de um sótão, o bico de gás de uma sala de jantar ou a vela de um quartinho.
Quando acabaram de acender-se as luzes também o movimento cessou. Principiaram-se os serões.
Levemos o leitor a um deles.
Uma rua, ou melhor, um estreitíssimo beco, esmagado entre duas paredes crivadas de janelas iluminadas ou não, é o caminho que conduz ao coração desse povoado da quinta.
No extremo dessa viela úmida e escura está uma porta aberta. Entremos...
É uma sala miserável, pobremente mobiliada. Das paredes caem flâmulas de papel descolado e no meio da casa gemem míseros trastes, sobrecarregados de ninharias. Pelas mesas há vasos de fantasia arabescados de rachas e esfoladuras sobre uns tapetes de lã felpudos e muito anchos; pelas cadeiras, retalhos de pano e objetos de costura.
A um canto, conversam baixinho um velho e uma velha. Estão sentados em cadeiras, ao lado de uma pequena mesa. Sobre a mesa há uma vela que bate-lhes no rosto e clareia a toda a luz as rugas das duas fisionomias.
Trocam vivamente palavras.
O velho, com dedo médio unido ao polegar, como apertando uma pitada, faz gestos de quem sabe o que diz, e a velha encara-o através de uns grandes óculos de aros pretos, aprovando com a cabeça,e fala de vez em quando, agitando a agulha que tem na destra e a costura que sustenta na mão esquerda.
Em outro lado da sala vê-se, toda encurvada sobre si uma mocinha. Acha-se sobre um banco com os joelhos cruzados, repuxando-lhe muito o vestido que comprime-lhe as formas. Dedilha febrilmente um cabo de crochet de osso branco. De tempos a tempos levanta o rosto com os olhos semicerrados e sacode para trás a vasta cabeleira negra e esparsa, que quer escorregar-lhe para o crochet.
É uma formosa criaturinha, feições de criança, ar distraído, um tanto carnuda sob uma epiderme sem irritações. Parece não ter quatorze anos ainda e podia usar vestido curto.
Eis mais ou menos o que diziam os velhos:
- Sim, sim, - falava o marido -, é preciso garantirmos o futuro daquela menina. Se não aceitássemos os oferecimentos do Pavia cometeríamos um crime.
- Um verdadeiro crime - afirmou a velha.
- Por um tolo escrúpulo não se há de perder um bom dinheiro...
- Tão bom dinheiro... - reforçou a velha, batendo com a cabeça.
- Demais, o lucro não será só para nossa afilhada, o nosso netinho terá o seu quinhão...
- Sim senhor... Sim senhor...
- Já vê que fiz bem em responder ao Pavia que sim...
- Muito bem. A nossa afilhada assim terá um futuro garantido. A proteção do sr. Duque não é qualquer coisa... Ah! quem me dera que eu ainda fosse fresquinha como antigamente..." (CONTINUA)


Machado de Assis:

"Memórias póstumas de Brás Cubas

AO VERME
QUE
PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES
DO MEU CADÁVER
DEDICO
COMO SAUDOSA LEMBRANÇA
ESTAS
MEMÓRIAS PÓSTUMAS

AO LEITOR

QUE STENDHAL confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual, ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas

CAPÍTULO PRIMEIRO /ÓBITO DO AUTOR

ALGUM TEMPO hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia - peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferi. à beira de minha cova: "Vós, que o conhecestes, meus senhores vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado." ( Obra completa AQUI )"


Aluísio de Azevedo:

"O Mulato

Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças d’água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem-cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.
A Praça da Alegria apresentava um ar fúnebre. De um casebre miserável, de porta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede e uma voz tísica e aflautada, de mulher, cantar em falsete a “gentil Carolina era bela”; do outro lado da praça, uma preta velha, vergada por imenso tabuleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancólico: “Fígado, rins e coração!”. Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pele crestada os ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sair, atravessava a rua, suado, vermelho, afogueado, à sombra de um enorme chapéu-de-sol. Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos, movimentos irascíveis, mordiam o ar querendo morder os mosquitos. Ao longe, para as bandas de São Pantaleão, ouvia-se apregoar: “Arroz de Veneza! Mangas! Mocajubas!” Às esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de sabão da terra e aguardente. O quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, acariciando o seu imenso e espalmado pé descalço. Da Praia de Santo Antônio enchiam toda a cidade os sons invariáveis e monótonos de uma buzina, anunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quase todas negras, muito gordas, o tabuleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris trêmulos e as tetas opulentas. "( CONTINUA)


Julio Ribeiro:

" A carne


O doutor Lopes Matoso não foi precisamente o que se pode chamar um homem feliz.

Aos dezoito anos de sua vida, quando apenas tinha completado o seu curso de preparatórios, perdeu pai e mãe com poucos meses de intervalo.

Ficou-lhe como tutor um amigo da família, o coronel Barbosa, que o fez continuar com os estudos e formara-se em direito.

No dia seguinte ao da formatura, o honesto tutor passou-lhe a gerência da avultada fortuna que
lhe coubera, dizendo:
- Está rico, menino, está formado, tem um bonito futuro diante de si. Agora é tratar de casar, de ter filhos, de galgar posição. Se eu tivesse filha você já tinha noiva; não tenho, procure-a você mesmo.

Lopes Matoso não gastou muito tempo em procurar: casou-se logo com uma prima de quem sempre gostara e junto à qual viveu felicíssimo por espaço de dois anos.

Ao começar o terceiro, morreu a esposa, de parto, deixando-lhe uma filhinha.

Lopes Matoso vergou à força do golpe, mas, como homem forte que era, não se deixou abater de vez: reergueu-se e aceitou a nova ordem de coisas que lhe era imposta pela imparcialidade brutal da natureza.

Arranjou de modo seguro seus negócios, mudou-se para uma chácara que possuía peno da cidade, segregou-se dos amigos e passou a repartir o tempo entre o manusear de bons livros e o cuidar da filha.

Esta, graças às qualidades da ama que lhe foi dada, cresceu sadia e robusta, tomando-se desde logo a vida, a nota alegre do eremitério que se constituíra Lopes Matoso.

Visitas de amigos raras tinha ele, porque mesmo não as acoroçoava: convivência de fama não tinha nenhuma.

Leitura escrita gramática aritmética, álgebra, geometria, geografia, história, francês, espanhol, natação, equitação, ginástica, música , tudo isso Lopes Matoso exercitou a filha porque em tudo era perito: com ela leu os clássicos portugueses, os autores estrangeiros de melhor nota, e tudo quanto havia de mais seleto na literatura do tempo.

Aos quatorze anos Helena ou Lenita, como a chamavam, era uma rapariga desenvolvida, forte, de caráter formado e instrução acima do vulgar.

Lopes Matoso entendeu que era chegado o tempo de tomar a mudar de vida, e voltou para a cidade." (CONTINUA)



Adolfo Caminha:

"O Bom Crioulo

A velha e gloriosa corveta — que pena! — já nem sequer lembrava o mesmo navio d’outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como um galera de lenda, branca e leve no mar alto, grimpando serena o corcovo das ondas!...

Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que entusiasmava a gente nos bons tempos de “patescaria”. Vista ao longe, na infinita extensão azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantástica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas até a primitiva pintura do bojo.

No entanto ela aí vinha — esquife agourento — singrando águas da pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme garça branca flechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o mar...

Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois, com uma pancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a viagem tornava-se monótona; a larga superfície do oceano estendia-se muito polida e imóvel sob a irradiação meridional do sol, e a corveta deslizava apenas, tão de leve, tão de leve que mal se lhe percebia o movimento.

Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de criatura humana fora daquele estreito convés: água, somente água em derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilúvio medonho..., e no alto, lá em cima, o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia.

Triste e nostálgica paisagem, onde as cores desmaiavam à força de luz e a voz humana perdia-se numa desolação imensa!

Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros em pé, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqüilamente, esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peças, varais de escotilha, tudo quanto é aço e metal amarelo reluz fortemente, encandeando a vista.

De vez em quando há um grande rebuliço: a mastreação geme, como se fora desprender-se toda, o pano bate com força de encontro às vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirar da água no bojo da velha nau.

Agüenta! diz uma voz.

E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tédio, a calmaria sem fim...

Já os primeiros sintomas de indolência refletiam-se no semblante da gente, convertendo-se em bocejos e espreguiçamentos de sesta, e ainda ficavam tão longe as montanhas da costa e os carinhos da família!..." (CONTINUA)

29 de out. de 2008

Romantismo

O Romantismo nasce das novas possibilidades que surgem com a indepencência política e suas consequencias culturais, o novo público leitor, as instituições universitárias e o nacionalismo ufanista que varre o País. Existe o sentimento de criar uma literatura autônoma que expresse o Brasil, e o sentimento dos brasileiros.
Os valores do romantismo europeu, adequavam - se as exigências ideológicas dos escritores brasileiros da época, uma vez que a literatura clássica e classicismo representavam a dominação dos portugueses, o romantismo volta - se para a natureza e o exótico e aqui, tudo isso era exuberante. O nacioalismo romântico vai se representar nos seguintes elementos: indianismo, sertanismo, natureza, procura da língua brasileira, entre outros.
O Romantismo é compreendido em três gerações:

Primeira geração, conhecida como nacionalista ou indianista: Os temas nacionais era valorizados, o índio era tido como o "bom selvagem".
Alguns escritores que se destacam nessa época:

Gonçalves Dias:

"I - Juca Pirama
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? — ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: — de um povo remoto
Descende por certo — dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: — no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incubem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira
Entesa-se a corda da embira ligeira,
Adorna-se a maça com penas gentis:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia
Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
O índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar," (CONTINUA)



Gonçalves de Magalhães:

"Preces da infância

Vós me vedes, Deus Eterno,
Como eu sou tão pequenina;
Minha alma é inda inocente,
Tão pura como a bonina.

Débeis como minhas vozes
São inda meus pensamentos;
Do mundo nada conheço,
Nem prazeres, nem tormentos.

Qual tenro botão de rosa
Que à sombra da rosa cresce,
Sem temer o vento, e a chuva,
De um frouxo raio se aquece.

Mas pouco a pouco crescendo,
Desabrocha, e cheiro exala,
Orna o prado que a sustenta,
E da roseira é a gala.

Assim eu filhinha tenra,
A meus pais devo esta vida;
A seu lado eles me educam,
Por eles serei querida.

Hoje inocente me chamam!
Oh como é bela a inocência!
É a virtude dos Anjos,
É das virgens a ciência.

Vós, oh Deus, que podeis tudo,
Concedei-me por piedade
Que este aroma da inocência
Me acompanhe em toda idade.

Oh meu Deus, dai à minha alma
Puro e santo pensamento,
Como o perfume do templo,
Que sobe ao vosso aposento.

Dai a meus pais longa vida,
E àqueles que à minha infância
Prestam socorros contínuos
Com tanto amor e constância.

Que felizes, que ditosos
Por vós, oh Deus, protegidos,
Passem seus dias, seus anos
Como astros, sem ser sentidos.

Vigorai minha fraqueza
Co'a vossa sabedoria.
Oh Deus, ouvi minhas preces,
Escutai-me neste dia."


Além de Araújo de Porto Alegre e Teixeira e Souza.


A segunda geração é conhecida como mal do século, fase ultra - romântica e byroniana. Os escritos são carregados de pessimismo, valorização da morte, tristeza e uma visão decadente da socieadade.

Alguns autores que se destacam:


Casimiro de Abreu:

"Minh'alma é triste


Minh'alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.


E, como a rôla que perdeu o esposo,
Minh'alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.


E como notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.


Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minha'alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.


Dizem que há, gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
— Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque — mas a minh'alma é triste!" (CONTINUA)


Alvares de Azevedo:

"Minha desgraça

Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito blasfema,
É ter para escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela."


Junqueira Freire:

"Martírio

Beijar-te a fronte linda
Beijar-te o aspecto altivo
Beijar-te a tez morena
Beijar-te o rir lascivo

Beijar o ar que aspiras
Beijar o pó que pisas
Beijar a voz que soltas
Beijar a luz que visas

Sentir teus modos frios,
Sentir tua apatia,
Sentir até répúdio,
Sentir essa ironia,

Sentir que me resguardas,
Sentir que me arreceias,
Sentir que me repugnas,
Sentir que até me odeias,

Eis a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!

Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger dos dentes,
Eis o penar do inferno!"




- A terceira Geração é marcada pela crítica social, um dos escritores que mais de destacaram na época foi Castro Alves:


"O povo ao poder



QUANDO nas praças s'eleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.


A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.


Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.


A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu'infâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.


Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.


No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".


Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.


Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.


Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações."

28 de out. de 2008

Neoclassicismo ou Arcadismo

O objetivismo e a razão entram em cena, a linguagem deixa de ser complexa e passa a ser mais objetiva. A busca por uma vida simples, valorização do viver presente e da natureza assim como a idealização da mulher amada.
Alguns escritores da época :

Claudio Manoel da Costa:

"Se sou pobre pastor, se não governo
Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o verão, outono, estio, inverno;

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, coas enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões desse tormento eterno.

Adorar as traições, amar o engano,
Ouvir dos lastimosos o gemido,
Passar aflito o dia, o mês, e o ano;

Seja embora prazer; que a meu ouvido
Soa melhor a voz do desengano,
Que da torpe lisonja o infame ruído." (MAIS SOBRE ELE AQUI)



Tomás Antônio Gonzaga:


"Lira I


Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
e mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos inda não está cortado;
os Pastores que habitam este monte
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste
nem canto letra, que não seja minha.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil Pastora,
depois que o teu afeto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte e prado;
porém, gentil Pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!
(...) " ( MAIS SOBRE O AUTOR AQUI)



Basílio da Gama:


"Morte de Lindóia



Um frio susto corre pelas veias

De Caitutu que deixa os seus no campo;

E a irmã por entre as sombras do arvoredo

Busca com a vista, e treme de encontrá-la.

Entram enfim na mais remota, e interna

Parte de antigo bosque, escuro e negro,

Onde, ao pé duma lapa cavernosa,

Cobre uma rouca fonte, que murmura,

Curva latada e jasmins e rosas.

Este lugar delicioso e triste,

Cansada de viver, tinha escolhido

Para morrer a mísera Lindóia.

Lá reclinada, como que dormia,

Na branda relva e nas mimosas flores,

Tinha a face na mão e a mão no tronco

Dum fúnebre cipreste, que espalhava

Melancólica sombra. Mais de perto

Descobrem que se enrola no seu corpo

Verde serpente, e lhe passeia e cinge

Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.

Fogem de a ver assim sobressaltados

E param cheios de temor ao longe;

E nem se atrevem a chamá-la e temem

Que desperte assustada e irrite o monstro,

E fuja, e apresse no fugir a morte.

Porém o destro Caitutu, que treme

Do perigo da irmã, sem mais demora

Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes

Soltar o tiro, e vacilou três vezes

Entre a ira e o temor. Enfim sacode

O arco e faz voar a aguda seta,

Que toca o peito de Lindóia e fere

A serpente na testa, e a boca e os dentes

Deixou cravados no vizinho tronco.

Açoita o campo com a ligeira cauda

O irado monstro, e em tortuosos giros

Se enrosca no cipreste, e verte envolto

Em negro sangue o lívido veneno.

Leva nos braços a infeliz Lindóia

O desgraçado irmão, que ao despertá-la

Conhece, com que dor! no frio rosto

Os sinais do veneno, e vê ferido

Pelo dente sutil o brando peito.

Os olhos, em que Amor reinava, um dia,

Cheios de morte; e muda aquela língua,

Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes

Contou a larga história de seus males.

Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,

E rompe em profundíssimos suspiros,

Lendo na testa da fronteira gruta

De sua mão já trêmula gravado

O alheio crime, e a voluntária morte.

E por todas as partes repetido

O suspirado nome de Cacambo.

Inda conserva o pálido semblante

Um não sei quê de magoado, e triste,

Que os corações mais duros enternece.

Tanto era bela no seu rosto a morte!"


Frei José de Santa Rita Durão:

"CARAMURU POEMA ÉPICO DO DESCOBRIMENTO DA BAHIA

CANTO I

I

De um varão em mil casos agitados,

Que as praias discorrendo do Ocidente,

Descobriu recôncavo afamado

Da capital brasílica potente;

Do Filho do Trovão denominado,

Que o peito domar soube à fera gente,

O valor cantarei na adversa sorte,

Pois só conheço herói quem nela é forte.

II

Santo Esplendor, que do Grão Padre manas

Ao seio intacto de uma Virgem bela,

Se da enchente de luzes soberanas

Tudo dispensas pela Mãe donzela;

Rompendo as sombras de ilusões humanas,

Tudo do grão caso a pura luz revela;

Faze que em ti comece e em ti conclua

Esta grande obra, que por fim foi tua." (CONTINUA)

27 de out. de 2008

Abre Aspas


Abrimos aspas hoje no blog para Sophia de Mello Breyner Andresen e Catulo da Paixão Cearense.
Sophia, é uma poeta portuguesa que se transformou em uma das mais importantes poetas contemporâneas, foi sinônimo da poesia e muitas vezes musa da própria poesia. Suas poesias são densas... Muitas falam de amor, política e sentimentos. Sophia estudou filosofia clássica e publicou diversos livros, além de escritora era tradutora e foi Deputada à Assembléia Constituinte pelo Partido Socialista.

" Pátria
Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a exatidão

Dum longo relatório irrecusável



E pelos rostos iguais ao sol e ao vento



E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas



— Pedra rio vento casa

Pranto dia canto alento

Espaço raiz e água

Ó minha pátria e meu centro



Eu minha vida daria

E vivo neste tormento "


Catulo era de São Luiz do Maranhão, viveu por lá até os 10 anos e depois foi morar no Sertão Agreste Cearense onde viveu com seus avós até os 17 anos.Catulo, foi pioneiro na indústria fonográfica Nacional, a ter uma letra sua gravada em disco. Violeiro e poeta e escreveu várias músicas, entre elas, Luar ao Sertão. Mais informações sobre Catulo AQUI

"O SOL E A LUA

O Sol é força, energia!
A Lua é uma ave-maria!
Se o Sol morre combatendo,
em sangue rubro fervendo,
no incêndio de um fogaréu,
a Lua sempre falece,
rezando, triste, uma prece,
e com saudades do céu!
*
E eu vos direi, como poeta,
que quando a Lua nos deixa,
quando ela desaparece,
rezando, triste, uma prece,
é porque vai, meus Senhores,
vai inspirar noutros mundos
outros poetas superiores
aos deste mundo de ateus,
outros poetas mais poetas,
mais cultos, mais inspirados,
e muito mais adiantados,
que estão mais perto de Deus! "

25 de out. de 2008

Barroco

A obra de Bento Teixeira, Prosopopéia, marca a transição do Quinhentismo para o Barroco. O Barroco ganhou força no Brasil entre 1720 e 1750, fase em que foram fundadas inúmeras academias literárias no Brasil. As obras literárias são marcadas pela angústia e a oposição, entre o mundo material e espiritual. Os escritos são carregados de metáforas, antíteses e hipérboles.

Os escritores que mais se destacaram na época foram:

Gregório de Matos:

"Ao dia do juizo.

O alegre do dia entristecido,
O silêncio da noite perturbado
O resplendor do sol todo eclipsado,
E o luzente da lua desmentido!

Rompa todo o criado em um gemido,
Que é de ti mundo? onde tens parado?
Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.

Soa a trombeta da maior altura,
A que a vivos, e mortos traz o aviso
Da desventura de uns, d’outros ventura.

Acabe o mundo, porque é já preciso,
Erga-se o morto, deixe a sepultura,
Porque é chegado o dia do juízo." ( MAIS SOBRE ELE AQUI)



Botelho de Oliveira:

" Jaz oblíqua forma e prolongada

    a terra de Maré toda cercada

    de Netuno, que tendo o amor constante,

    lhe dá muitos abraços por amante,

    e botando-lhe os braços dentro dela

    a pretende gozar, por ser mui bela.

Nesta assistência tanto a senhoreia,

    e tanto a galanteia,

    que, do mar, de Maré tem o apelido,

    como quem preza o amor de seu querido:

e por gosto das prendas amorosas

    fica maré de rosas,

    e vivendo nas ânsias sucessivas,

    são do amor marés vivas;

    e se nas mortas menos a conhece,

    maré de saudades lhe parece.

Vista por fora é pouco apetecida,

    porque aos olhos por feia é parecida;

    porém dentro habitada

    é muito bela, muito desejada,

    é como a concha tosca e deslustrosa,

    que dentro cria a pérola fermosa.

Erguem-se nela outeiros

    com soberbas de montes altaneiros,

    que os vales por humildes desprezando,

    as presunções do Mundo estão mostrando,

    e querendo ser príncipes subidos,

    ficam os vales a seus pés rendidos.

Por um e outro lado

    vários lenhos se vêem no mar salgado;

    uns vão buscando da Cidade a via,

    outros dela se vão com alegria;

    e na desigual ordem

    consiste a fermosura na desordem." ( CONTINUA)


    Frei Itaparica:

"Descrição da Ilha de Itaparica

Canto Heróico

I
Cantar procuro, descrever intento,
Em um Heróico verso e sonoroso,
Aquela que me deu o nascimento,
Pátria feliz, que tive por ditoso:
Ao menos co'este humilde rendimento
Quero mostrar lhe sou afetuoso,
Porque é de ânimo vil e fementido
O que à Pátria não é agradecido.

II

Se nasceste no Ponto, ou Líbia ardente,
Se no Píndaro viste a aura primeira,
Se nos Alpes, ou Etna comburente,
Princípio houveste na vital carreira,
Nunca queiras, Leitor, ser delinqüente,
Negando a tua Pátria verdadeira,
Que assim mostras herdaste venturoso
Ânimo heróico, peito generoso." ( CONTINUA)


Padre Antônio Vieira: Foi autor de diversos sermãos e livros, entre eles a história do Futuro ( Clique aqui para acessar a obra)


Sebastião da Rocha Pita:

"Soneto

[Mudou o Sol o Berço refulgente,
[ou fez Berço do Túmulo arrogante
[galhardo onde se punha agonizante
[com luz no Ocaso, e sombras no Oriente.

[Não morre agora o Sol, quer diferente
[no Aspecto, se na vida semelhante
[no Oriente nascer menos flamante,
[e renascer mais belo no Ocidente.

[Fênix de raios a uma, e outra parte
[O comunica os incêndios, e fulgores,
[porém com diferença hoje os reparte.

[Nasce lá no Oriente só em ardores,
[no Ocidente a ilustrar Ciência, e Arte
[renasce em luzes, vive em resplendores."


Nuno Marques Pereira:

Não achei nenhum texto on line dele, porém foi autor do livro "do peregrino da américa", o título é bastante extenso e algo mais sobre o autor pode ser encontrado AQUI.